Morre soldado brasileiro no Haiti

Rodrigo da Rocha Klein foi eletrocutado na noite de quinta-feira ao tropeçar num fio de alta tensão em Porto Príncipe

Tahiane Stochero, do Estadao.com.br, O Estadao de S.Paulo

07 de agosto de 2004 | 00h00

A força de paz da ONU no Haiti abriu um inquérito para investigar as circunstâncias da morte do soldado brasileiro Rodrigo da Rocha Klein, de 21 anos, ocorrida num acidente na noite de quinta-feira em Boston, região de Porto Príncipe. A investigação é apenas uma formalidade em mortes em missões de paz, mas deve apurar o descuido do soldado. Klein, gaúcho de São Luiz Gonzaga, morreu por volta das 19h45 de quinta-feira ao pisar em um fio de alta tensão no Ponto Forte Dourados, um prédio de dois andares que era utilizado por gangues na favela de Cité Soleil (em Porto Príncipe), área mais violenta do Haiti, até o início de março, quando o local foi ocupado pelas tropas brasileiras da ONU. O estadao.com.br apurou que o soldado saiu por uma pequena abertura para uma área onde normalmente os militares não vão na laje do prédio e, ao tentar retornar, tropeçou em um fio elétrico da via pública e recebeu uma descarga elétrica. O soldado gritou por ajuda e tentou, com o outro pé, empurrar o fio. Klein, integrante do 7º contingente brasileiro na Missão da ONU para a Estabilização do Haiti (Minustah), havia chegado ao país em 15 de maio, quando houve revezamento de tropas. No momento do acidente, ele estava fardado e usava coturno, a bota de borracha dos militares. Ao ouvir os gritos, o sargento Luiz Guilherme Fagundes Caetano, de 23 anos, tentou socorrer o colega e acabou queimando as mãos e sofrendo algumas escoriações. O fio elétrico foi cortado pelos brasileiros com um alicate de metal. Os dois foram socorridos pelas tropas brasileiras, que os levaram para o Hospital Argentino da missão da ONU. Klein, porém, morreu no local do acidente. O sargento Caetano, abalado, continua internado, mas não corre risco de morte. INVESTIGAÇÃO INTERNAMilitares guatemaltecos, responsáveis pela parte jurídica da Minustah, realizaram ainda na noite de quinta-feira uma perícia no local. O Batalhão Brasileiro no Haiti também abriu uma investigação interna para apurar o acidente. O Haiti não tem serviço contínuo de distribuição de energia elétrica e a maioria da população com poder aquisitivo possui geradores. A ONU assumiu todas as despesas para o traslado e o enterro do corpo - que, a pedido da família, será na cidade de São Luiz Gonzaga. Ao contrário do que foi divulgado pelo Exército, o corpo deve ser trazido ao País por um avião comercial fretado pelas Nações Unidas e chegará entre quatro e seis dias, após o término da investigação, informou o coronel Carlos Jorge, assessor de imprensa das tropas brasileiras no Haiti. Cumprindo regras internacionais, o corpo será embalsamado e conduzido em um caixão metálico. Contudo, o Brasil envia ao Haiti a cada três semanas um avião com suprimentos para as tropas. Se coincidir de o corpo estar liberado por ocasião de um destes vôos, pode ser que seja trazido pela FAB. De acordo com o coronel Carlos Jorge, assim que o comando brasileiro soube da morte, comunicou o 4º Regimento de Cavalaria Blindado, onde o soldado servia desde 2004, que avisou a família durante a madrugada de ontem. Antes de deixar o Haiti, o corpo de Rodrigo Klein deve ser homenageado em uma cerimônia organizada pela ONU para todos os capacetes-azuis que morrem em missões de paz. A cerimônia deve ocorrer no pátio do Hospital Argentino, onde o corpo está sendo mantido. Klein é o segundo brasileiro que morre na Minustah, mas é quinta morte por acidente entre todas as tropas internacionais no Haiti somente neste ano. Em 7 de janeiro de 2006, o general gaúcho Urano Teixeira de Matta Bacellar, de 57 anos, foi encontrado morto no terraço do apartamento onde residia no Hotel Montana. Bacellar estava no comando da missão da ONU no Haiti desde 31 de agosto de 2005, quando assumiu o posto em substituição ao também general brasileiro Augusto Heleno Ribeiro. A morte de Bacellar, a primeira baixa sofrida pelo contingente brasileiro no país caribenho, foi confirmada oficialmente como suicídio. MAIOR CONTINGENTEAtuando há três anos no Haiti, o Brasil possui o maior número de militares na Minustah, cerca de 1.200 homens. Composta por militares de 40 países, a missão foi criada pela ONU em fevereiro de 2004, depois que uma onda de protestos e violência no Haiti provocou a queda do presidente Jean-Bertrand Aristide.Desde o início, o contingente brasileiro tem liderado operações contra o crime organizado no país caribenho, pacificando os bairros mais violentos de Porto Príncipe, como Bel Air, Cité Militaire e Cité Soleil. Todos os chefes militares da missão foram brasileiros.

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