Morre Ted Kennedy, o último do clã

Senador democrata, de 77 anos, era remanescente da família mais influente da política americana no século 20

Patrícia Campos Mello, O Estadao de S.Paulo

27 de agosto de 2009 | 00h00

file://imagem/93/kennedy.jpg:1.93.12.2009-08-27.5 O senador Edward Moore Kennedy, o último estandarte da dinastia política Kennedy, morreu na noite de segunda-feira, após uma longa luta contra um câncer no cérebro. Ted, como era chamado, tinha 77 anos. Ele será enterrado no cemitério de Arlington, em Washington, ao lado dos irmãos John e Bobby Kennedy, dois ícones da política americana. Ted foi o único dos irmãos a não ter uma morte violenta. JFK foi assassinado em 1963 e Bobby, em 1968. Joseph, o irmão mais velho, morreu em combate na 2ª Guerra, em 1944.   Morte de Ted Kennedy deixa vazio na política americana Obama: Morte de Kennedy encerra capítulo da história dos EUA Republicanos e democratas lamentam morte de Kennedy Perfil: Câncer põe fim a trajetória do 'último Kennedy' Conheça os membros da Dinastia Kennedy Fotos: Veja as principais imagens de Ted Kennedy Vídeo: Assista no YouTube o histórico discurso na convenção democrata em 2008 Especial: Cronologia da vida do senador democrata Quatro momentos na vida de Ted Kennedy Ted ficou conhecido como o "leão liberal" do Senado, por sua juba de cabelos brancos e sua batalha incansável por questões caras aos democratas - reforma das leis de imigração, educação, direitos civis e acesso universal à saúde. "Perdemos o centro insubstituível de nossa família e a alegria de nossas vidas", disse a família Kennedy em um comunicado. "Ele não foi apenas um dos maiores senadores de nossa era, mas também um dos melhores americanos a servir nossa democracia", disse o presidente Barack Obama em um comunicado oficial.Ted teve vida longa no Senado. Foram 47 anos de uma prolífica carreira. Ele tentou concorrer à presidência, em 1980, quando disputou a primária com o então presidente Jimmy Carter. Mas perdeu, principalmente por causa de um acidente que seria uma mancha em sua vida política. Em 1969, o carro que ele dirigia caiu em um canal e sua assistente morreu afogada, em Chappaquiddick. A investigação concluiu que houve negligência do senador, que fugiu sem prestar assistência à jovem e só avisou a polícia no dia seguinte.O acidente sabotou suas pretensões de concorrer à presidência. Mas, para muitos, esse revés se mostrou uma bênção. O irmãozinho mais novo dos Kennedys se transformou em um dos senadores mais competentes da história. No ano passado, ele foi crucial para a eleição de Obama. Há um ano, na Convenção Democrata, ele fez um discurso brilhante de apoio a Obama, enfurecendo Hillary Clinton. "Em novembro, o bastão será passado para uma nova geração de americanos, com Barack Obama. E com Obama, o trabalho recomeça, a esperança se renova e o sonho continua." Ted viu no jovem senador negro a promessa de continuidade do sonho dos Kennedy. Ted chegou ao Senado em 1962, eleito para a vaga do irmão John. O começo não foi dos mais auspiciosos. Ted tinha apenas 30 anos e era considerado despreparado. "Esta vitória de Edward Kennedy é aviltante para o Senado e o processo democrático", vociferou o The New York Times no editorial "O irmãozinho ganhou", em 1962. Mas o caçula dos Kennedys provou ser o mais relevante ao longo de suas quase cinco décadas no legislativo. Nos anos 60, lutou por leis de direitos civis. Depois do Watergate, defendeu reformas no financiamento de campanhas. Participou nos esforços de paz na Irlanda do Norte e ajudou a aprovar a lei de sanções contra o apartheid na África do Sul. Em 1990, criou leis de proteção aos deficientes e às crianças. Segundo a revista Time, ele participou da criação de políticas "que afetaram virtualmente todo homem, mulher e criança" do país. Ted era o último sobrevivente de peso da dinastia Kennedy. Ele queria que sua mulher Vicki o sucedesse, mas ela não quer entrar na política. Seu filho, o congressista Patrick, não traz muito da mística dos Kennedy. E sua sobrinha Caroline, filha de John, fracassou ao tentar ser indicada para a vaga de Hillary. Para a historiadora Doris Kearns Goodwin, autora do livro sobre o gabinete de Abraham Lincoln, Time de Rivais, a capacidade de Ted em superar reveses e aprender com seus erros era sua melhor qualidade. "Penso na frase de Hemingway, ?O mundo quebra as pessoas, mas depois elas ficam mais fortes nos lugares onde elas foram quebradas." Assim foi com Ted, após a tragédia do assassinato de seus irmãos, do acidente e da derrota para Carter, que selou seu destino longe da Casa Branca. Na ocasião, ele discursou sobre sua campanha - e também sobre a própria vida. "Para mim, algumas horas atrás, essa campanha acabou. Mas para todos cujos problemas têm nos preocupado, o trabalho continua, a causa perdura, a esperança ainda vive e o sonho nunca vai morrer."

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