MORRE ÚLTIMO HERÓI DO CHACO

Brigadeiro boliviano Paz Soldán tinha 102 anos

O Estado de S.Paulo

24 de abril de 2014 | 02h00

A Bolívia perdeu no sábado o último herói da Guerra do Chaco (1932-1935), maior confronto na América do Sul no século 20, que deixou cerca de 90 mil mortos. O general Alberto Paz Soldán, de 102 anos, morreu em sua casa, em La Paz, de causa natural.

"A lembrança que eu tenho do meu avô é muito forte porque morei com ele", disse ao Estado o neto do brigadeiro, Juan Bernardo Maurício Paz Soldán Raad, de 52 anos, nascido na Bolívia, mas registrado como cidadão brasileiro. "Eu vivi essa atmosfera de grandes histórias, que pareciam ficção, mas estão todas documentadas, aconteceram mesmo."

Como reconhecimento da importância de Paz Soldán para a aviação civil boliviana e para a Força Aérea do país, o presidente Evo Morales entregaria amanhã para o general o Condor dos Andes - distinção mais importante outorgada por La Paz. A cerimônia, tornada póstuma, foi antecipada para segunda-feira.

"Sua biografia é uma lição de vida, de um soldado que serviu sua pátria e defendeu seu território e seus recursos naturais", afirmou Evo no evento realizado no Museu da História Militar, em La Paz. Segundo o presidente, seria bom fazer um resumo da vida do herói morto para que "novos cadetes saibam que a Bolívia teve um soldado a serviço da pátria". Paz Soldán já havia sido condecorado em 2012 com a Ordem Mariscal Andrés de Santa Cruz e nomeado herói nacional em 1996 pelo Senado.

Das história contadas pelo avô, Juan relembra que só o fato de ter trocado uma brigada de terra pela Força Aérea e ter aprendido a pilotar durante a Guerra do Chaco já foi algo impressionante. "Em um dos episódios mais famosos relatados por observadores, a aeronave que meu avô pilotava teve a fuselagem atingida por 16 tiros de armamento antiaéreo e, mesmo assim, ele conseguiu pousar", diz. "O que eu acho importante destacar é que ele nunca quis participar da política boliviana, que tem um histórico de golpes militares. Ele era, aliás, crítico dessas situações."

Último piloto boliviano sobrevivente do confronto, Paz Soldán iniciou sua carreira militar em 1927. Ele chegou ao cargo de subchefe do Estado-Maior. Também foi professor de acrobacias aéreas e exerceu cargos diplomáticos em vários países. Em 1990, ele lançou o livro A condução da Força Aérea Boliviana na Guerra do Chaco.

Bolívia e Paraguai entraram em confronto em 1932 pela posse da região do Chaco, rico em gás e petróleo. Pelo menos 60 mil bolivianos e 30 mil paraguaios morreram em três anos de guerra. O confronto foi encerrado em 1935 com a assinatura do armistício que resultou na anexação pelo Paraguai de quase dois terços da área disputada. / MURILLO FERRARI, COM EFE

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