Morre Vergès, o 'advogado do diabo'

Francês defendeu de terroristas a criminosos de guerra - e quis Hitler 'ou até Bush' como clientes

PARIS, O Estado de S.Paulo

17 de agosto de 2013 | 02h10

Jacques Vergès, o advogado francês que abraçou causas anticoloniais e o papel de "advogado do diabo" para defender criminosos de guerra, terroristas, ditadores e outros notórios vilões do século 20, morreu na quinta-feira, em Paris. Ele tinha 88 anos. A causa foi um ataque cardíaco por volta das 20 horas, quando ele estava se preparando para jantar com amigos. Ele morreu na casa parisiense onde viveu Voltaire, o grande filósofo do Iluminismo.

"Foi o lugar ideal para o último ato teatral que foi a morte desse ator nato, que, como Voltaire, cultivou a arte da revolta e da reviravolta permanentes", diz a nota que anunciou sua morte, refletindo a reputação do advogado de fazer perguntas perturbadoras em favor de réus notórios.

Um matador é um terrorista ou um patriota? Poderão as leis serem usadas para julgar o bem e o mal? Durante mais de 50 anos, Vergès levantou essas questões em defesa de clientes acusados de genocídios, crimes contra a humanidade, atentados a bomba, sequestros e assassinato de inocentes.

Entre eles, figuram o criminoso de guerra nazista Klaus Barbie - o líder da Gestapo em Lyon que dizimou a resistência francesa -, o terrorista Ilich Ramírez Sánchez (Carlos, o Chacal) e o líder do Khmer Vermelho, Khieu Samphan. Vergès também tentou defender os ex-presidentes Saddam Hussein, do Iraque, e Slobodan Milosevic, da Sérvia. "Eu teria defendido Hitler", disse, em 2008. "Ou até mesmo (George W.) Bush."

Vergès intitulou sua biografia de O Brilhante Bastardo e se comparava aos grandes homens da literatura "que se erguem sozinhos contra o status quo". Como muitos de seus clientes, ele - filho de uma vietnamita e de um diplomata francês - era um enigma. Assassinos tentaram matá-lo, há indícios de laços com serviços secretos, com terroristas que defendeu, com Mao Tsé-tung e Ernesto Che Guevara. Foi um confidente de Pol Pot, o tirano culpado pela morte de 1,7 milhão de cambojanos.

Vergès casou-se com uma terrorista que salvou da guilhotina, mas a largou com seus dois filhos e desapareceu por oito anos. "É um homem escorregadio", disse o cineasta Barbet Schroeder, que fez Advogado do Terror, documentário de 2007 sobre Vergès e sobre o terrorismo como arma política.

Numa carreira que transcorreu em paralelo à desintegração de impérios coloniais na Ásia, África e Oriente Médio no pós-guerra, Vergès ganhou notoriedade no fim dos anos 50 ao defender argelinos acusados de atentados terroristas com bombas. Em vez de contestar as evidências dos promotores franceses, ele insistiu que os acusados eram combatentes da resistência numa guerra justa de libertação e questionou a legitimidade jurídica e moral dos julgamentos.

Apesar de a maioria dos seus clientes ter sido condenada, os julgamentos chamaram a atenção internacional para Vergès e, muito depois da independência argelina, em 1962, ele consagrou a estratégia de transformar tribunais em palanques públicos para indiciar a França e outras nações ocidentais pelo que ele chamou de "crimes de colonialismo racista e de exploração de povos do Terceiro Mundo".

Sua atuação mais polêmica foi em defesa de Barbie, nazista capturado na Bolívia e condenado na França. Antes ícone da esquerda, ele passou a ser visto como traidor. "Defender não significa concordar. Um advogado não julga, condena ou inocenta. Ele tenta entender." / NYT

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