Morre Vernon Walters, guardião do poder americano

Aos 85 anos, ele conservava o olhar firme, as posições definitivas e as respostas rápidas e ousadas que o transformaram numa figura polêmica, admirada por políticos e diplomatas, temida por todos os comunistas, enfim, uma presença marcante na política externa dos Estados Unidos.Mas foi longe dos holofotes, já afastado dos grandes acontecimentos mundiais, no silêncio de um hospital de West Palm Beach, na Flórida, que o general Vernon Walters morreu no domingo passado - uma notícia que só nesta quinta-feira foi anunciada fora do seu círculo familiar.Walters, que nunca se casou, será enterrado com todas as honras militares no cemitério nacional de Arlington, no começo do mês que vem. Militar competente, conselheiro confiável, tradutor, administrador, diplomata, amigo pessoal de dezenas de líderes mundiais, Walters leva consigo uma bela penca de segredos da história mundial do século 20, que partilhou com quase todos os presidentes dos EUA desde Franklin Roosevelt, ainda durante a 2ª Guerra Mundial, até 1991.Ele já estava ao lado de Harry Truman, por exemplo, quando o presidente americano teve encontros cruciais com o general Douglas MacArthur para discutir o futuro do Japão logo após a explosão das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki. Foi também intérprete em momentos decisivos para o presidente Dwight Eisenhower (início dos anos 50). Nos anos 60, uma década conturbada na América Latina, Walters, já um diplomata veterano, ajudou a executar a política de Washington no continente, onde ficou com fama de "agente golpista" pela participação que teria tido nos golpes militares do Brasil, em 1964, e mais tarde do Chile, em 1973.Uma fama injusta, garantem muitos de seus amigos mais chegados. Primeiro, porque Walters era, na verdade, um daqueles patriotas absolutos, em tempo integral, dedicado à defesa do interesse dos EUA, que ele mesclava com a própria idéia de democracia. Tanto que uma de suas frases prediletas, e que o definiam perfeitamente, era esta: "Minha impressão é que os Estados Unidos são a única chance que a liberdade tem de sobreviver no mundo".Segundo, porque muitos estudiosos sustentam que sua participação no golpe militar brasileiro de 1964 foi superestimada. Alheio a tais comentários, o rigoroso general depois serviu ao presidente Richard Nixon, entre 1972 e 76, como subdiretor da CIA, tornando-se figura essencial para os contatos entre Henry Kissinger o líder norte-vietnamita Le Duc Tho, que levaram ao fim da guerra do Vietnã.Para Ronald Reagan, nos anos 80, atuou como embaixador itinerante. Por três anos serviu como embaixador americano na ONU (1985-88). Por fim, coroando longas décadas de intimidade com a história política mundial, estava na Alemanha como embaixador quando caiu o Muro de Berlim - episódio que iniciou a derrocada dos regimes comunistas pelo mundo afora.Nascido em Nova York, em 3 de janeiro de 1917. Instalado com a família na Europa quando tinha seis anos, fez seus estudos no Stonyhurst College, na Inglaterra. Aprendeu a falar francês, espanhol, italiano e alemão. Mais tarde tornou-se fluente em português, chinês e russo.A habilidade com línguas foi arma importante para aproximar-se dos presidentes e servir como tradutor - especialmente para Harry Truman, Dwight Eisenhower e Richard Nixon. Walters entrou no exército americano em 1941, em plena Segunda Guerra. Lutou na África do Norte e na Itália, onde fez importante amizade com o militar brasileiro Humberto de Alencar Castelo Branco.Walters escreveu dois livros: "Missões Discretas" e "Os Poderosos e os Obedientes". Um dos momentos mais marcantes de sua vida ocorreu em 1957, quando acompanhava Nixon numa viagem pela América do Sul. Enquanto atravessava uma barricada de manifestantes anti-americanos, na capital venezuelana, Caracas, o carro em que ele e o presidente viajavam foi atingido por uma chuva de pedras. Um dos projéteis esmigalhou a janela de Walters machucando-o na boca. Nixon teria dito, então: "Cuspa o vidro, você vai ter de falar muito mais espanhol por mim hoje."

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