Morrer continua sendo difícil...

Durante muito tempo, a França inumou, enterrou, sepultou seus mortos. Atualmente, ela começa lentamente, com muitas precauções, a cremá-los.Sem dúvida, está longe de competir com outros países em que a cremação triunfou sobre a inumação: na França, as cremações totalizam 17%, enquanto na Inglaterra chegam a 71% e na Suécia a 67%.Na França, a cremação teve início há pouco mais de um século, em 1887, quando as associações laicas conseguiram que o Legislativo tornasse livre a natureza dos funerais.Uma vez superado esse passo legislativo, a cremação alimentou durante algum tempo a guerra entre os ateus e os católicos (ou, de modo geral, os cristãos).Pedir para ser reduzido a cinzas era, ainda no início do século 20, uma espécie de profissão de fé atéia. Diziam então os livres-pensadores: "Pedir para ser incinerado é fazer um último gesto de zombaria ao vigário da aldeia".Essas querelas estúpidas estão bem ultrapassadas. Na verdade, em 1963, a Igreja católica admitiu a cremação, com algumas condições: é preciso que a cerimônia seja realizada na igreja paroquial com a presença de um caixão e não é aconselhável guardar as cinzas em sua casa, mas confiá-las a uma sepultura ou a um columbário.Sobre essa questão, as grandes religiões têm posições muito diferentes: os católicos, os protestantes e os budistas aceitam-na. Em compensação, os judeus e os árabes a recusam. Se a família resolve, em seguida, fazer a dispersão das cinzas, surge um novo problema.Sem dúvida, teoricamente, essa dispersão pode ser realizada, na França, em qualquer lugar, exceto "em via pública".Um destino muitas vezes privilegiado - por razões evidentes - é a natureza, sobretudo o mar ou o alto da montanha. No mar, liberdade, uma vez que as cinzas são espalhadas a mais de 300 metros do litoral, o que supõe recorrer a uma sociedade "crematória" ou a um amigo pecador, que vai dar essa ajuda às cinzas.Às vezes, a lei, a jurisprudência tem alguns problemas com o destino das cinzas. Há famílias que as disputam. É preciso então, dividir essas cinzas em duas. Outras vezes, acontece o contrário: a família deseja a mistura das cinzas de dois cônjuges, de modo a prolongar por toda a eternidade o companheirismo de um homem e de uma mulher.Embora os pedidos de cremação se multipliquem, constata-se, em compensação, que, para as famílias, a cremação é muitas vezes uma experiência ainda mais traumatizante do que a inumação e a volta à terra.Na falta de um lugar material, na falta de um monumento, de um lugar em que repousa o cadáver, as famílias ficam muitas vezes desconcertadas e não sabem sobre que objeto realizar o "ritual do luto".Em resumo: é difícil morrer. É mais difícil ainda ser, em seguida, um morto.

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