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'Morsi é um fantoche. Islamistas não podem ser democráticos', diz ativista

Dalia Ziada, feminista egípcia, estará no Brasil em dezembro; para ela, Irmandade Muçulmana quer instalar ditadura no país

Entrevista com

GUSTAVO CHACRA, CORRESPONDENTE / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2012 | 02h06

CAIRO - A Irmandade Muçulmana e seus líderes, como o presidente Mohamed Morsi, não podem ser considerados democratas e buscam instalar uma nova ditadura no Egito, ameaçando os direitos femininos. A avaliação é de Dalia Ziada, egípcia defensora dos direitos humanos no Cairo. Ela estará no Brasil em dezembro para falar sobre a situação das mulheres em seu país.

 

Estado: Qual a sua avaliação das ações de Morsi para concentrar poderes?

Dalia Ziada: Não ocorreu apenas na semana passada. Desde quando assumiu a presidência, Morsi, apoiado por seu grupo, a Irmandade Muçulmana, está tentando estabelecer uma nova ditadura no Egito. Eles começaram pela remoção dos comandantes do Exército, passando a controlar as instituições militares. Posteriormente, eles dominaram a Assembleia Constituinte. Por último, decidiram assumir o controle do sistema judicial.

 

Estado: Os protestos dos últimos dias no Cairo são especificamente contra as ações recentes de Morsi ou contra a Irmandade Muçulmana como um todo?

Dalia Ziada: Morsi é apenas um fantoche nas mãos da Irmandade Muçulmana. Ele trabalha para eles, que o usam como máscara.

Estado: Há mais ou menos direitos para as mulheres depois da Primavera Árabe?

Dalia Ziada: Nada mudou em termos de leis e sociedade. Mas há algumas tentativas de líderes da Irmandade Muçulmana para mudar leis que sustentam os direitos das mulheres. Eles querem nos dar menos direitos, mas não conseguem por pressão da sociedade civil. No entanto, sofremos mais depois da revolução, pois estamos marginalizadas na vida pública e afastadas de cargos oficiais.

Estado: Governos de viés islamista eleitos democraticamente não podem ser melhores para as mulheres do que ditaduras seculares?

Dalia Ziada: De jeito nenhum. Os islamistas não podem ser democráticos. Usando a sharia como argumento, políticos islamistas afirmam que o povo não deve governar. Portanto, em primeiro lugar, não há nada que possa ser descrito como islamista democrático. Os islamistas são horríveis ao lidar com as mulheres. Eles nos veem como cidadãs de segunda classe que não devem fazer nada além de cuidar de nossas casas e dos filhos. Ditaduras seculares são algumas vezes boas para as mulheres e sustentam nossos direitos como uma forma de conquistar legitimidade aos olhos do Ocidente.

Estado: Na Tunísia, um país de maioria árabe e islâmica, as mulheres possuem o direito ao aborto há mais de 40 anos. Em muitos outros países, incluindo o Brasil, não possuem. Qual a sua visão sobre o direito ao aborto?

Dalia Ziada: É algo polêmico e nunca estive em uma situação na qual precisasse tomar uma posição.

Estado: Qual a sua avaliação sobre a situação das mulheres na Arábia Saudita, onde há, segundo alguns analistas, praticamente um apartheid contra as mulheres, que nem mesmo podem dirigir?

Dalia Ziada: A Arábia Saudita está atrasada na história. Mas movimentos pelos direitos das mulheres estão crescendo e, em algum momento, obterão sucesso.

Estado: Você, como muçulmana, já foi alvo de islamofobia no Ocidente?

Dalia Ziada: Nunca. Viajo muito e nunca fui ameaçada por ser muçulmana.

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