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Morsi promove jovens militares excluídos por junta, no Egito

Insatisfeitos com 'velha guarda', novos oficiais reclamam de condições de trabalho

O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2012 | 03h04

CAIRO - Com o expurgo dos generais de alto escalão do Egito, o presidente Mohamed Morsi recorreu ao apoio da oficialidade mais jovem que atribui à velha guarda uma série de problemas nas Forças Armadas e o envolvimento excessivo dos militares na política do país, depois do levante que derrubou o antecessor de Morsi, Hosni Mubarak.

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Um oficial de alta patente sustenta que os militares foram se sentindo cada vez mais decepcionados com os magros salários, o clientelismo, os equipamentos sucateados, a falta de oportunidades para promoções e a crescente confusão a respeito do papel dos seus líderes.

Essas queixas tornaram-se mais concretas na semana passada, quando milicianos mataram 16 soldados na Península do Sinai, no norte do país. "A gente precisa de equipamento para trabalhar. Vocês não podem dar carros mal conservados, uma centena de soldados e pedir que a gente cuide da segurança de 30 quilômetros quadrados no deserto", diz o militar, que pediu anonimato.

A mudança da guarda deixou um panorama incerto. O poder aparentemente passou para Morsi, enquanto o outrora poderoso Conselho Supremo das Forças Armadas, que governava o país desde a revolução do ano passado, embora modificado, continua firme. Na segunda-feira, um dia depois da saída dos generais, não houve sinal de que os militares estivessem se mobilizando em protesto.

Analistas suspeitam que o presidente tenha chegado a um acordo com uma nova geração de líderes das Forças Armadas que procura restabelecer a sua credibilidade, fortalecer sua própria posição e preservar o lugar privilegiado dos militares na sociedade.

No domingo, Morsi demitiu o ministro da Defesa, marechal de campo Mohamed Hussein Tantawi, e o chefe de Estado-Maior, Sami Hafez Enan. Os comandantes da Força Aérea, da Marinha e da Defesa Aérea também foram obrigados a ir para a reserva. Desde o expurgo, os egípcios procuram indícios de uma possível reformulação que possa dar início a um novo período de conflitos entre os militares e Morsi, membro da Irmandade Muçulmana.

"A alteração nesse nível de chefia foi uma medida inteligente de Morsi", diz o oficial. "Ele esperou o momento adequado, quando o país já havia dado alguns passos no caminho certo." Morsi conseguiu assim um grau de lealdade de uma casta de oficiais que deve a ele sua nova posição de destaque.

Entre eles, está o general Abdul Fattah Sisi, que Morsi nomeou marechal de campo em lugar de Tantawi. Para alguns, é possível que uma facção do Conselho Supremo estivesse disposta a aceitar muito menos do que os amplos poderes que Tantawi e seus aliados procuravam para si mesmos.

"Acho que existe um mínimo exigido pela base militar do país", diz Omar Ashour, professor da Universidade de Exeter, na Grã-Bretanha. "Eles querem vetar questões sensíveis em política externa, como Israel e Irã - toda política que possa envolver o país em um confronto externo."

"Sisi estava disposto a aceitar o mínimo, contrariamente ao que Enan e o marechal de campo estavam pedindo, que era mais ou menos o poder dos militares argelinos, combinado com a legitimidade dos militares turcos", afirma Ashour, referindo-se aos amplos poderes políticos dos generais da Argélia na década de 90, e às intervenções dos militares turcos na política interna.

Isso não significa que o comandante e os seus colegas oficiais se encontrem em situação mais confortável com o novo presidente. "A verdade é que estamos preocupados porque ele pertence à Irmandade Muçulmana. Estamos preocupados que esse possa ser um primeiro passo para conquistar a lealdade dos novos líderes, preparando um novo passo no futuro", diz o oficial. / NYT

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