Morsi tem de trabalhar pela preservação da República do Egito

País é crucial para uma região que precisa de renovação

É COLUNISTA, ROGER, COHEN, THE NEW YORK TIMES, É COLUNISTA, ROGER, COHEN, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

02 de dezembro de 2012 | 02h07

O presidente do Egito, Mohamed Morsi, cometeu um enorme erro. Seus motivos podem até ter sido justos - estou disposto a conceder-lhe o benefício da dúvida. No entanto, o erro é grave e precisa ser corrigido. O fato de ele ter se dotado, por meio de um decreto, de um poder praticamente absoluto que o coloca acima da Justiça, lembra a famosa frase do diplomata francês Charles Maurice de Talleyrand: "Pior do que o crime, foi o erro".

Morsi declara que a medida é temporária, um instrumento para tirar rapidamente o Egito do seu limbo pós-revolucionário. Entretanto, "temporário" não é um termo em que se possa acreditar na nação em que os poderes ditatoriais de que o presidente Hosni Mubarak se dotou, alegando que se tratava de uma situação de emergência, duraram dezenas de anos.

A aprovação da Constituição da mais importante nação do mundo árabe, onde vivem cerca de 25% dos árabes de todo o planeta, local que serviu de teste fundamental das liberdades prometidas pela Primavera Árabe, não pode ser imposta por uma Assembleia Constituinte que perdeu cerca de 25% dos seus 100 membros, na maioria liberais e mulheres que saíram em protesto. Hoje, ela é constituída por um grupo de remanescentes desacreditados dominado por partidos de inspiração islâmica. E, principalmente, não quando os juízes do país, que teriam de supervisionar um eventual plebiscito a respeito de um esboço de Constituição, entraram em greve. Morsi, com sua ousadia, realizou uma façanha política singular: a união de ineficientes facções liberais seculares divididas do Egito com enormes protestos de rua, exigindo que o decreto fosse revogado.

Um tuíte de Mohamed ElBaradei, o Prêmio Nobel egípcio, comparando Morsi a um novo faraó, fez sucesso. O presidente egípcio precisa começar tudo de novo. A política democrática é trabalhosa. O presidente Barack Obama que o diga. Morsi não pode evitar as difíceis negociações políticas no Egito, onde ele ganhou as eleições presidenciais deste ano com 51,7% dos votos. Mas os outros 48,3% não podem ser menosprezados. No mínimo, seu decreto precisa ser revogado e a Assembleia Constituinte precisa receber a credibilidade que somente a inclusão pode conferir.

Diplomacia. Eu disse que estava disposto a dar ao presidente Morsi o benefício da dúvida. Ele sabe que a ditadura não passará no novo Egito. Conseguiu astutamente afastar os militares, foi de grande ajuda em Gaza e mostrou-se corajoso na questão do Irã e da Síria. Ele é um produto da cultura da Irmandade Muçulmana que, em razão da violenta repressão, estava propensa à conspiração e ao segredo. Os inimigos estavam por toda parte.

É fácil perceber que, com uma decisão da Justiça esperada para hoje, que poderá dissolver a Assembleia Constituinte, talvez Morsi estivesse convencido de um complô orquestrado pelo regime anterior para minar a vontade popular e colocar o Egito de volta no ponto de partida em sua transição. O problema é que ele não tentou resolver a questão mediante uma aproximação. Ele se fechou em um casulo absolutista e permitiu que a votação do anteprojeto começasse.

Em uma recente entrevista no Cairo, Essam Soltan, um famoso advogado que foi membro da Irmandade Muçulmana e a deixou para formar seu próprio partido, me disse: "Morsi representa a vontade do povo. No entanto, é preciso lembrar que ele vem de um movimento que por 60 anos foi obrigado a agir na clandestinidade. Isso produz doenças. As generalizações delirantes gostam de ver todo mundo como inimigo da religião".

"Os interesses e as ideias humanas deveriam ser a base da discussão e não a religião. No entanto, a esquerda e os liberais também têm seus próprios problemas. Suas ideias vieram de fora e não de dentro de um sistema democrático egípcio", afirmou Soltan.

Atualmente, muitos liberais no Egito estão propensos a reduzir a liberdade a uma cláusula subordinada. Sim, afirmam, hoje temos liberdade para dizer o que queremos, para escrever o que queremos. Isso é ótimo, mas não podemos tolerar a Irmandade Muçulmana e, depois, opor-nos a tudo o que ela faz. Eu diria que a liberdade não é um parêntese e 51,7% de democracia são suficientes para governar.

Democracia. O Egito percorreu um longo caminho. Generais formados nos Estados Unidos saudaram um presidente da Irmandade Muçulmana livremente eleito e uma nação orgulhosa surgiu de uma profunda e paralisante anestesia política. As realizações, contudo, são frágeis.

Morsi e sua oposição liberal deveriam lembrar das palavras de Benjamin Franklin ao sair da convenção constitucional em Filadélfia, quando à questão sobre o sistema de governo que havia sido adotado, ele respondeu: "Uma república, se você consegue entender".

Preservar a liberdade recentemente conquistada pelo Egito exigirá coragem e compromisso. Morsi precisa corrigir seu erro e Obama deveria trabalhar nos bastidores para garantir isso. Os liberais devem se unir e aceitar eventuais compromissos. O anteprojeto da Constituição não favorece o Egito porque favorece o campo islâmico, mas os problemas não são insuperáveis.

Desde que escrevi sobre isso, no mês passado, foi excluída uma cláusula controvertida que dizia que homens e mulheres têm direitos iguais "desde que isso não entre em conflito com as normas da lei islâmica, a sharia".

Sem saída. Esse dado é importante. Aparentemente, no começo do mês passado, foi alcançado um amplo compromisso que aludia aos "princípios" da lei islâmica como uma referência norteadora, como na atual Constituição, mas ele se desintegrou quando os islamistas tentaram pressionar para que fosse aprovado o anteprojeto, cuja concentração de poder na pessoa do presidente preocupa.

Acelerar a aprovação de um documento dessa importância não é uma opção. O Egito se dividirá, os investimentos secarão e a agitação continuará. Morsi precisa vencer as suspeitas sobre sua Irmandade Muçulmana para compor uma Assembleia Constituinte que inclua os adversários liberais que, como os republicanos no Congresso americano, agora deveriam expressar seu patriotismo por meio do pragmatismo. Vale a pena manter um Egito livre. Ele seria um agente crucial de mudança numa região que precisa desesperadamente de uma nova maneira de pensar. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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