Rayner Peña/EFE
Rayner Peña/EFE

Morte a conta-gotas em hospitais da Venezuela 

Obter transplante é tarefa quase impossível e pacientes renais morrem aos poucos por falta de remédios

Ron González*, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2019 | 05h00

BARQUISIMETO, VENEZUELA - Frank Meléndez espera ao lado de 50 pessoas para usar uma máquina de hemodiálise. O procedimento repetido três vezes por semana, durante 18 anos, vem se tornando cada vez mais difícil em razão do colapso do sistema de saúde da Venezuela. Ele vive na cidade de Barquisimeto, tem apenas 45 anos, mas parece mais velho. Hoje, não caminha sem ajuda, está preso a uma cadeira de rodas há quase cinco anos. A escassez de remédios interrompeu seu tratamento renal e enfraqueceu seu sistema ósseo.

Meléndez depende de ajuda até mesmo para tarefas cotidianas, como comer ou tomar bando. Ele parou de trabalhar, não vai mais ir ao cinema, a parques e não visita os amigos.

As máquinas de hemodiálise assumem a função dos rins e purificam o sangue dos pacientes, mas também privam os doentes de elementos importantes para uma vida plena, como cálcio e ferro. “Não somos nenhum obstáculo para o governo ou qualquer coisa assim. Sou útil para o país. Ainda posso produzir alguma coisa”, disse Meléndez em uma clínica arruinada de Barquisimeto, capital do Estado de Lara.

Nos últimos três anos, sua vida tornou-se uma agonia. Desde novembro, Meléndez já presenciou a morte de 24 pacientes que estavam sendo tratados com ele. Todos ficaram sem medicamentos e tiveram de diminuir a frequência das diálises. “De 129 pacientes, em menos de seis meses, morreram 24. Claro que há culpados”, disse.

Apagões

Juana Jiménez, uma das enfermeiras da clínica, diz que os doentes pararam de tomar suplementos de ácido fólico, ferro e cálcio. “Com o passar do tempo, os pacientes vão ficando em carne e osso. Somente neste mês, morreram três por semana”, conta.

De acordo com Jiménez, a coisa mais difícil nos últimos anos foi conviver com os pacientes esperando dias para continuar o tratamento durante os apagões que paralisaram a Venezuela em março. A clínica, um dos principais centros para pacientes renais no Estado de Lara, não tem gerador.

Alfredo Cáceres, coordenador da ONG Amigos Transplantados da Venezuela, do Estado de Carabobo – vizinho de Lara – diz que os pacientes renais que se submetem a tratamentos alternativos por mais de dois anos têm a saúde irremediavelmente afetada. 

De acordo com ele, na Venezuela há 11 mil pacientes renais esperando por transplantes, mas o programa do governo de doação de órgãos acabou por falta de recursos, cinco anos atrás. 

Cáceres afirma que, em razão da escassez de medicamentos para hipertensão e diabetes, a quantidade de pacientes renais na Venezuela deve aumentar no curto prazo. “A saúde de um paciente renal na Venezuela se deteriora muito rápido. Se ele não tem a possibilidade de um transplante, infelizmente, vai morrer. Temos casos de pacientes que fizeram diálise por 20 anos e não conseguiram transplantar. Para mim, isto não é vida. É uma morte lenta.” 

Crianças

No Estado de Carabobo, pais de crianças doentes tentam reativar o programa de transplante para salvar a vida dos filhos. Hoje, há pelo menos 11 garotos, entre 6 e 14 anos, passam por um duro procedimento de diálise peritoneal. 

“É um tratamento bastante rígido para o qual dificilmente conseguimos medicamentos”, afirma María Campero, mãe de um menino de 13 anos que sofre de doença renal há quase uma década. “O transplante de rim para o meu filho é urgente. Já são mais de nove anos de tratamento alternativo.” 

Campero, porém, sabe que, em meio à crise política e econômica, os pacientes renais não são prioridade para o governo da Venezuela. Ela chegou a recorrer a defensores públicos e ativista que defendem o direito das crianças, mas a resposta foi sempre a mesma: o silêncio. /*EFE

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