‘Morte catalisou muitas reivindicações’

Sociólogo da Universidade de Buenos Aires diz que ato provocará mudanças, independentemente do discurso do governo

Entrevista com

Carlos De Angelis

Rodrigo Cavalheiro, Correspondente/Buenos Aires , O Estado de S. Paulo

19 de fevereiro de 2015 | 21h00

A marcha pela memória do promotor teve fundo político, como afirma o governo?

A Praça de Maio é muito significativa. A avenida por onde passou a marcha conecta os três poderes. Não há como não ter fundo político. Por outro lado, foi uma marcha convocada pelo Judiciário, algo sem precedente. 

Esse fator político é nocivo?

Não, trata-se, sim, de um ato com impacto político e isso é saudável. Vai trazer mudanças, independentemente do discurso do governo. Não se pode dizer quais efeitos, até porque há vários pré-candidatos em igualdade. As pesquisas mostram cada vez mais indecisos. 

Pode aparecer um nome novo à presidência?

Em 2012 e 2013, houve marchas de classe média e média alta muito críticas ao governo. Elas perderam força porque não tiveram ator político para capitalizar a insatisfação. Isso ocorreu com os “indignados”, na Espanha, que naquele momento não acharam líder. Agora, apareceu o Partido Podemos e capitalizou essa insatisfação.

Esses setores podem decidir a eleição presidencial?

Na Argentina, os setores mais humildes costumam ser maioria. O governo apoiou basicamente esses setores com planos sociais. Há um grupo que rejeita o governo, composto pela classe média antiperonista e outro que se viu afetado pelo câmbio, pela inflação e pela falta de segurança. Mas os mais pobres seguem apoiando o governo nacional.

Havia na marcha kirchneristas só querendo saber o que ocorreu com o promotor?

O ambiente se polarizou muito. Kirchneristas não participam de outras instâncias cívicas.

O sr. enxergou interesses difusos na mobilização?

Há um mês, muita gente ali nem sabia que existiam promotores. Por isso, há um vínculo com as marchas de 2012 e 2013 na Argentina, com o que ocorreu em 2013 no Brasil. Uma mobilização da classe média, que em geral não as faz. A morte (do promotor Nisman) catalisou muitas reivindicações. Mesmo assim, houve cuidado para evitar cartazes com “fora Cristina”, brigas ou expressões violentas que estão nas redes sociais.

A reação governista à marcha, tachando-a de opositora ou golpista, foi inteligente?

Considerar uma mobilização como algo golpista é contraproducente. Nem as que incluem violência o são.

Há uma crise institucional?

Há crise política, que a democracia resolve nas eleições.  

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