Morte de 4 em escola judaica abre caça a autor de crimes em série na França

A ação de um terrorista de extrema direita ou de um radical islâmico são as duas principais hipóteses investigadas pela polícia da França para o assassinato de três crianças e um professor na manhã de ontem em uma escola judaica de Toulouse, no sul do país.

ANDREI NETTO, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2012 | 03h01

O crime ocorreu pouco antes das 8 horas, quando um homem armado estacionou uma moto - uma scooter mais potente - e desceu atirando em estudantes e pais que chegavam à escola, antes de fugir sem ser identificado. O ataque pôs em vigor o Plano Vigipirata, o alerta antiterrorismo, e lançou a França a uma caçada de seu novo inimigo número 1.

Ao que tudo indica, o crime foi premeditado para ser cometido no horário da entrada da Ozar Hatorah, a maior escola da comunidade judaica de Toulouse. Três crianças - Aryeh Sandler, de 3 anos, Gabriel Sandler, de 6, e Miryam Monsonégo, de 8 - foram mortas, além do pai das duas primeiras, Jonathan Sandler, de 30 anos, professor de religião da instituição.

Segundo testemunhos obtidos pelo procurador do caso, Michel Valet, o atirador parou diante do colégio e disparou de forma aleatória a munição de duas pistolas. "O assassino atirou no que havia em sua frente, fossem crianças ou adultos", afirmou Valet. "Algumas crianças foram perseguidas no interior da escola."

Após o ataque, o criminoso retornou para a moto e partiu. Nenhum dado de identificação facial pôde ser obtido das testemunhas, pois o assassino usava capacete de motociclista. Tão logo se verificou que o crime tinha sido cometido diante de uma escola israelita, a comunidade judaica da França - a terceira maior do mundo, depois da de Israel e da dos EUA - denunciou um ato antissemita. Essa tese foi usada pelo presidente da França, Nicolas Sarkozy, e pelo ministro do Interior, Claude Guéant. "Ao tomar crianças e professores judeus como alvo, a motivação antissemita parece evidente", denunciou o chefe de Estado, em visita ao local da tragédia.

Nas horas seguintes, o governo anunciou o reforço da segurança nas imediações de escolas israelitas do país. Uma manifestação foi organizada na noite de ontem pelas ruas de Paris até a Praça da Bastilha em solidariedade às vítimas e seus parentes. Em nota oficial, o governo de Israel qualificou o ataque de "horrível", mas manifestou a confiança de que a França será capaz de esclarecer as circunstâncias da ação.

Ao longo do dia, a hipótese de crime puramente antissemita foi deixada de lado, mas o de motivação xenofóbica ganhou força. Isso porque o atirador usou o mesmo método e disparou com a mesma arma - uma pistola automática .45 - no dia 11 e na quinta-feira. No primeiro ataque, em Toulouse, ele matou um soldado depois de fingir estar interessado em comprar uma moto. Na quinta-feira, em nova ofensiva, matou outros dois soldados na vizinha cidade de Montauban, Os três militares tinham origem árabe. Um terceiro soldado, cuja família veio de Guadalupe, ficou ferido no segundo ataque.

As evidências levaram a Direção Central de Informação Interna (DCRI), o serviço secreto que atua em território francês, a investigar como prioritária a hipótese de um ataque terrorista de caráter xenofóbico cometido por um militante de extrema direita.

Às 19h45, Sarkozy convocou a imprensa ao Palácio do Eliseu para anunciar a elevação do alerta de risco de atentados terroristas para nível escarlate, o mais alto possível.

Um total de 120 investigadores de elite foram convocados pelo Ministério do Interior para se dedicar ao caso, atendendo ao pedido de "mobilização excepcional" feito pelo presidente. Mas a mobilização só será válida para o sul da França. Em Paris, o clima era de consternação, mas de tranquilidade ontem.

Reação. "Acompanhamos na dor toda a comunidade judaica de Toulouse e os parentes das vítimas", declarou ontem o brasileiro Jack Terpins, presidente do Congresso Judaico Latino-Americano. "Exigimos que as autoridades francesas façam justiça e os culpados tenham uma condenação exemplar."

Nos EUA, a polícia de Nova York - onde 1,4 milhão de judeus vivem - ampliou a segurança nas imediações de sinagogas e instituições judaicas após o ataque em Toulouse.

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