Jonathan Ernst/Reuters
Jonathan Ernst/Reuters

Morte de adolescente negro em caso suspeito de racismo indigna Obama

Presidente entra no debate sobre assassinato de Trayyon Martin, jovem alvo de disparo efetuado na Flórida por vigilante branco que não foi indiciado

DENISE CHRISPIM MARIN , CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2012 | 03h07

WASHINGTON - O disparo da arma de um latino branco contra um adolescente negro, na Flórida, reacende nos EUA a polêmica étnico-racial - que envolveu ontem até mesmo o presidente Barack Obama, normalmente cauteloso ao tratar deste tipo de questão. George Zimmerman, de 28 anos, vigilante voluntário da vizinhança de sua casa, na cidade de Sanford, matou o estudante secundarista Trayvon Martin, de 17 anos, na noite de 26 de fevereiro.

O assassino não foi preso, supostamente com base nas leis do Estado. A indignação da comunidade negra local estendeu-se na forma de múltiplas manifestações nos EUA contra a suposta motivação racista do atirador e pedindo por justiça. Apesar de ter ponderado sobre seu dever de "ter cuidado ao declarar-se sobre o tema, para não prejudicar as investigações" - ainda incompletas -, Obama claramente assumiu uma posição pública.

"Quando eu penso nesse rapaz, eu penso nas minhas próprias filhas. Todos os pais na América devem ser capazes de entender por que é absolutamente imperativo que nós investiguemos todos os aspectos desse caso e as forças federal, estadual e local devem atuar conjuntamente", afirmou Obama.

"Mas a minha principal mensagem é para os pais de Trayvon Martin. Se eu tivesse tido um filho, ele seria parecido com Trayvon." Obama mantivera-se calado até a manhã de ontem. O procurador-geral da república, seu porta-voz em controvérsias raciais, o também negro Eric Holder, assumira a função de verbalizar a posição oficial sobre o caso Zimmerman-Trayvon. Ontem, quando conversou com Holder pela manhã, os protestos organizados pelos pais da vítima, por associações de direitos civis e por estudantes negros na Flórida, Califórnia e em Nova York haviam se espalhado pelo país e ganhado repercussão.

Os manifestantes denunciam a motivação racista do crime e pedem a prisão imediata de Zimmerman. Por pressão da comunidade negra, o chefe de polícia de Sanford, Bill Lee Jr., renunciara na quinta-feira. Até a noite de ontem, porém, não foram registrados protestos violentos.

Crime. Do assassinato, em si, pouco se sabe. A investigacão dos fatos e motivações tornou-se prioridade máxima do FBI. Na noite do crime, Zimmerman fazia sua ronda, armado. Atirou em Trayvon, telefonou para a polícia e confessou o ocorrido. Estava ao lado do corpo de Trayvon com a arma ainda na mão. Seu nariz sangrava e tinha uma ferida na parte de trás da cabeça. Zimmerman afirmou ter atirado em defesa própria. Trayvon estava desarmado. A seu lado, uma sacolinha de plástico com caramelos e um chá gelado.

Testemunhas disseram aos policiais terem ouvido uma briga, um grito de socorro e um tiro. Os policiais não fizeram exame de álcool e de droga em Zimmerman, não verificaram seus antecedentes e tampouco o prenderam. A administração de Sanford argumentou que o estatuto da Flórida proíbe a polícia de prender alguém com base nos fatos e nas circunstâncias do crime.

No dia 9, a família de Trayvon pediu à polícia a prisão imediata de Zimmerman. Também solicitou acesso à conversa entre ele e a central 911, pouco depois do assassinato, para confirmar a suspeita de racismo. A família de Zimmerman fez o mesmo pedido, para provar não ter havido tal motivação.

Em entrevista à CBS, Tracy Martin, pai de Trayvon, relatou ser seu filho um jovem corajoso, que o salvou de um incêndio quando tinha apenas 9 anos. Frequentava a High School e nunca teve problemas com a lei. "Queremos ele (Zimmerman) preso. A morte de Trayvon não pode ser em vão", completou a mãe, Sybrina Fulton, que não duvida da motivação racista de Zimmerman.

"Ele seria a última pessoa a discriminar por qualquer razão", defendeu o pai de Zimmerman, Robert. A mãe dele, Glads, é peruana e a família é católica. Em 2005, segundo o jornal Orlando Sentinel, ele foi acusado de cometer atos violentos. Mesmo assim, obteve o direito de portar arma e apresentou-se como voluntário para o cargo de vigilante.

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