Morte de Benazir lança Paquistão em mares desconhecidos

O assassinato da líder oposicionistaBenazir Bhutto lança o Paquistão em uma das piores crises doseus 60 anos de história independente, com a possibilidade dedistúrbios e cancelamento de eleições. Os analistas dizem que o presidente Pervez Musharraf deveaproveitar o momento para reinstaurar o estado de emergência ecancelar, ou pelo menos adiar, as eleições marcadas para opróximo dia 8. "É correto presumir que as eleições não irão adianteagora", disse Farzana Shaikh, pesquisadora-associada doinstituto londrino Chatham House. "O processo eleitoral foifreado. Acho que há uma possibilidade muito real de queMusharraf decida que a situação saiu de controle e que eleprecisa impor o estado de emergência outra vez." Segundo ela, o Paquistão --aliado dos EUA na luta contra aAl Qaeda e o Taliban no Afeganistão-- entrou agora em "maresdesconhecidos", o que é especialmente preocupante num país comarmas nucleares, em constante crise com a vizinha Índia. "Esta não é a primeira crise que o Paquistão enfrenta desdesua criação, em 1947, mas eu me inclinaria a dizer que é a piorconvergência de crises que já vimos", disse Shaikh. Bhutto, 54 anos, morreu no hospital após ser vítima detiros e de uma explosão suicida, durante um ato político emRawalpindi. Pelo menos outras 15 pessoas ficaram feridas noataque. Horas antes, três seguidores do outro principal líderda oposição, Nawaz Sharif, haviam sido mortos a tiros. As primeiras suspeitas recaem sobre os radicais islâmicos,mas analistas dizem que outros adversários de Bhutto, inclusivegrupos ligados a Musharraf, não devem ser descartados. "Vai ser muito difícil estabelecer a verdade que está portrás disso", disse M.J. Gohel, diretor-executivo da FundaçãoÁsia-Pacífico, ligada ao setor de segurança e inteligência,também com sede em Londres. "Além de elementos do Taliban e da Al Qaeda, há muitosoutros candidatos, dentro dos militantes e dentro dos serviçosde inteligência, que nunca tiveram uma boa relação com Bhutto.É claro que há adversários políticos também --ela tinha muitosinimigos dentro do Paquistão, como todos sabem." Shaikh lembrou o fato de que ela foi morta em Rawalpindi,muito distante da província da Fronteira Noroeste, reduto dosmilitantes islâmicos. "Esse tipo de fato vai criar preocupaçõesmuito sérias sobre se houve algum tipo de conivência política." Assessores de Bhutto se queixavam frequentemente da faltade segurança oficial para ela. Em outubro, ao voltar do exílio,ela escapou por pouco de um outro atentado suicida, que matou139 pessoas. Gohel disse que provavelmente haverá mais violência agora,e que a reintrodução do estado de emergência pode levar a maisrepressão e protestos. "Estamos vendo um vácuo político se aseleições não ocorrerem. Os islamistas radicais podem realmentecomeçar a ocupar o vácuo e a operar de dentro dele. O Paquistãoé um país que é o lar da Al Qaeda e do Taliban, e obviamentetem armas nucleares e mísseis de longo alcance, tudo isso temrepercussões para o Ocidente e o mundo." (Reportagem adicional de Adrian Croft)

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