Muhammed Muheisen/AP
Muhammed Muheisen/AP

''Morte de Bin Laden deixa Al-Qaeda mais perto do fim''

Editor encontrou-se com saudita 2 vezes e diz que financiadores de grupo radical têm medo de continuar seu apoio

Adriana Carranca, O Estado de S.Paulo

10 de maio de 2011 | 00h00

Rahimullah Yusufzai, jornalista

ENVIADA ESPECIAL

PESHAWAR, PAQUISTÃO

O jornalista Rahimullah Yusufzai, editor do The News, diário em inglês publicado no Paquistão, é uma voz dissonante na capital do país, Islamabad, no olhar sobre a operação que matou Osama bin Laden. Yusufzai foi um dos poucos jornalistas do mundo a ter se encontrado cara a cara com o terrorista saudita, cuja trajetória ele acompanha desde a invasão soviética no Afeganistão. Em entrevista ao Estado, em seu escritório em Peshawar, Yusufzai lembrou os dois encontros com Bin Laden, em 1998, e disse que "a Al-Qaeda está perto do fim".

Como foram seus encontros com Bin Laden?

O primeiro encontro aconteceu (em maio de 2008) no campo de treinamento da Al-Qaeda em Al-Badr, na Província de Khost, na zona tribal do Norte do Waziristão. O tradutor era outro conhecido da Al-Qaeda, o egípcio que deve suceder Bin Laden, Ayman al-Zawahiri. Naquele dia, Bin Laden anunciou a Frente Islâmica Internacional pela Jihad contra Israel e EUA. A segunda entrevista foi em dezembro do mesmo ano. Um dos filhos de Bin Laden estava presente, além de 20 de seus homens e Zawahiri. Quem deu autorização foi o mulá Omar, pois na época o Taleban controlava o acesso aos líderes da Al-Qaeda por questões de segurança. Nós nos encontramos em Kandahar e fui levado num comboio para uma tenda no meio do deserto, na província de Helmand.

Como era Bin Laden?

Era um homem tímido e reservado, mas com algum senso de humor e uma AK47 sempre a tiracolo.

Você parece admirá-lo...

Você não teria admiração por um milionário que poderia estar vivendo num palácio, mas larga tudo para se esconder e lutar nas montanhas do Afeganistão? Bin Laden não precisava disso. Não ganhou dinheiro dos EUA para lutar contra os russos. Ele o fez porque acreditava. Colocou dinheiro próprio para financiar a jihad. E eu admiro as pessoas que têm um compromisso com uma causa e vão até o fim. Acontece que Bin Laden foi longe demais. Suas ações, como o 11 de Setembro, se tornaram indefensáveis.

Qual o futuro da Al-Qaeda?

A Al-Qaeda já estava fragilizada e não podia ter sofrido um golpe tão grande quanto a morte de Bin Laden por forças americanas. Agora, o financiamento da rede tornou-se muito difícil porque as pessoas têm medo. A Al-Qaeda tornou-se muito violenta e perdeu o apelo entre muçulmanos. A rede perdeu capacidade militar nos últimos anos. O Paquistão está sob grande pressão e pode entregar outros líderes para satisfazer os EUA. Acho que a Al-Qaeda está perto do fim.

Qual a sua visão sobre a operação que matou Bin Laden?

Ainda não temos provas da morte. Não existe um corpo e as evidências apresentadas até agora são fracas. Mas Bin Laden vivia naquela casa há algum tempo, isso é certo, e foi morto nessa operação. Não acredito que o governo ou os militares paquistaneses soubesses de sua presença.

Mas por que Abbottabad?

Por que é um esconderijo perfeito, numa área urbana, ao lado de uma base militar - um local sem a presença da Al-Qaeda ou do Taleban. Ninguém poderia desconfiar. E não é a primeira vez que terroristas são capturado em cidades (do Paquistão), já houve outros em Karachi, em Quetta. O acesso a facilidades da vida moderna os atrai.

Você acredita que o Paquistão não sabia da ação americana?

Acredito que os EUA tenham avisado as Forças Armadas do Paquistão, mas impediram sua interferência. E o Paquistão não tinha escolha.

QUEM É

O jornalista paquistanês Rahimullah Yusufzai foi um dos poucos repórteres do mundo a encontrar-se cara a cara com Osama bin Laden. Atualmente, ele edita o jornal "The News", que publica notícias em inglês no Paquistão.

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