Reprodução/Twitter/Rita Katz
Reprodução/Twitter/Rita Katz

Morte de Bin Laden tornou Al-Qaeda ‘ameaça difusa’

Ao mesmo tempo em que reduziu o poder de fogo do grupo, falta de líder deixou grupo mais difícil de combater

Jéssica Otoboni, O Estado de S. Paulo

11 de setembro de 2016 | 17h50

A organização terrorista Al-Qaeda - em português, “A Base” - foi a responsável por conduzir os atentados de 2001 nos EUA. As ações custaram ao grupo cerca de US$ 500 mil, e causaram danos de US$ 100 bilhões em Nova York e Washington, segundo relatórios da Comissão do 11 de Setembro. Com a morte do então líder, Osama bin Laden, por agentes seal (membros das forças especiais da Marinha americana) dez anos depois, o grupo diminuiu o número de ataques e mudou sua estratégia, diferenciando-se do que era há 15 anos.

Com o tempo, a estrutura dos grupos terroristas evoluiu em razão das novas tecnologias, deixando para trás a ideia de poder centralizado e dando origem a uma rede mais difusa. A Al-Qaeda ficou mais descentralizada, segundo Alon Ben-Meir, pesquisador do Center for Global Affairs da Universidade de Nova York. “Hoje eles têm células em muitos países que operam de forma independente”.

Se por um lado essa nova configuração torna mais difícil o combate às ações do grupo, por outro ela dificulta a execução de atentados de grandes proporções, principalmente no solo americano. “A Al-Qaeda tem investido muitos recursos em suas instalações, mas o governo dos EUA está pressionando as lideranças da organização”, afirma William Braniff, diretor do Consórcio Nacional para o Estudo do Terrorismo e Respostas ao Terrorismo (Start, na sigla em inglês), da Universidade de Maryland.

“A descentralização mudou a natureza da ameaça do grupo”, diz Braniff, que destaca o recente aumento das ações terroristas conduzidas por lobos solitários. “Isso torna mais difícil a identificação desses indivíduos que podem ter se radicalizado ao ponto de pensarem que é um dever deles conduzir um ataque.”

Além de mudar sua estrutura de poder, a Al-Qaeda se tornou também menos elitista, investiu mais em propaganda e insistiu na ideia de jihadismo global, a qual ainda atrai muitos adeptos. Para Dalia Ghanem Yazbeck, cientista política do Carnegie Middle East Center, no Líbano, o grupo aprendeu a se ajustar aos contextos locais onde atua.

“Desde o 11 de setembro, a Al-Qaeda se adaptou em vários níveis, tanto em ideologia quanto em estrutura”, explica Dalia. Mesmo sofrendo vários reveses, a organização continua presente em diversas regiões do mundo. “O grupo é altamente resiliente e adaptável.”

Objetivos. Para Bin Laden, a Al-Qaeda era uma espécie de exército que seria treinado e mobilizado para combater os chamados infiéis nos territórios muçulmanos e tentar minar a presença do ocidente no Oriente Médio. A organização acreditava que ao destruir os aliados dos EUA e de outros países ocidentais, conseguiria também levar os regimes árabes apóstatas à destruição.

A tarefa ficou a cargo de seu sucessor, Ayman al-Zawahiri. E apesar de o grupo ter mantido o território americano como um dos principais alvos, não conseguiu executar nenhum outro atentado terrorista nos EUA. “Desde o 11 de setembro os americanos passaram a tomar medidas de segurança e inteligência para prevenir um novo ataque da Al-Qaeda no país”, destaca Ben-Meir. “O grupo gostaria de realizar atentados contra os americanos, mas agora está mais difícil fazê-lo.”

Com o enfraquecimento da Al-Qaeda, alguns membros do grupo acabaram migrando para outras organizações terroristas, muitas das quais emergiram no começo dos anos 2000 e acabaram se fortalecendo, como os jihadistas do Estado Islâmico (EI).

“A distinção entre o EI e a Al-Qaeda é que este não tem ambições territoriais e seu objetivo centra-se em acabar com o poder do ocidente sobre o Oriente Médio. O EI, no entanto, quer estabelecer um Estado sob o poder do califado, começando na Síria e no Iraque”, explica Ben-Meir.

Apesar do EI ter surgido como um braço da Al-Qaeda, hoje ambos são considerados rivais por diversos analistas. Para William Braniff, “eles concorrem em termos de liderança global na violência e competem diretamente em terra por armas, recrutas e doadores”.

Os extremistas do EI investem no desenvolvimento de ferramentas virtuais de comunicação e as utilizam de maneira sofisticada, mas os verdadeiros pioneiros nesse tipo de estratégia foram os membros da Al-Qaeda. Eles têm presença menos ativa nas redes sociais, mas isso se justifica pela sua própria maneira de atuar. “A Al-Qaeda não quer recrutar pessoas abertamente. Seus membros o fazem em uma escala menor e de modo mais silencioso”, argumenta Ben-Meir.

Adaptação. Ainda que a estrutura de comando da Al-Qaeda pré-11 de setembro não exista mais, células menores conduzem suas próprias operações de forma cada vez mais imprevisível. Ben-Meir diz que “eles perderam enorme poder, mas ainda são ativos hoje em áreas específicas, como Síria, Iraque, Iêmen e Líbia”.

Veja abaixo: Os mistérios da morte de Bin Laden

O pesquisador afirma que o grupo não é muito proeminente no Afeganistão como costumava ser. “A guerra no país agora é basicamente entre o Taliban local e o governo.”

Para Richard Barrett, especialista em contraterrorismo e ex-coordenador do Grupo de Monitoramento da Al-Qaeda e do Taliban na ONU, o 11 de setembro foi a maior conquista da organização, que ainda se inspira no pensamento de Bin Laden e luta para continuar na ativa. “A Al-Qaeda ainda existe porque se adaptou, manteve seu nome nas manchetes e conseguiu se manter como expressão de uma ideia e como uma organização”, afirma Barrett.

Os objetivos do grupo hoje são “consolidar sua posição no Iêmen e na Síria, manter sua relevância como grupo ativo de oposição às regras não-islâmicas na maioria dos países muçulmanos, e atacar o ocidente”.

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