Morte de bolivianos expõe trabalho escravo na Argentina

Seis bolivianos morreram nesta quinta-feira vítimas de um incêndio ocorrido em uma oficina têxtil de Buenos Aires. Quatro deles eram crianças. O acidente aconteceu no bairro Caballito, onde trabalham e vivem cerca de 50 imigrantes em condições de escravidão. Segundo fontes diplomáticas da Bolívia no país, os corpos ainda não foram identificados e o acidente trouxe à tona o drama de centenas de imigrantes que trabalham em condições desumanas. "Há dias não recebemos um prato de comida sequer para compartir entre três", denunciou uma operária têxtil na televisão local. Ela também disse que os empregadores pagam entre US$ 0,10 e US$ 0,30 por prenda confeccionada, cerca de US$ 100 mensais, por uma jornada de 15 horas diárias de trabalho. Ela relatou ainda que os filhos dos trabalhadores deveriam estar encerrados durante todo o dia em um quarto da fábrica. O incêndio Aparentemente, o incêndio começou em um depósito da primeira planta do edifício, embora testemunhas declararam à imprensa que o fogo teve início em um dos quartos em que estavam as crianças. Quando os pais foram resgatá-los, o teto desabou. O cônsul da Bolívia em Buenos Aires, Alvaro González Quint, se colocou à disposição dos familiares das vítimas e dos trabalhadores e pediu para reforçar o trabalho conjunto com as autoridades argentinas para erradicar os focos de trabalho clandestino. Jorge Telerman, prefeito da capital portenha, demitiu o diretor geral de Proteção do Trabalho, Florencio Varela, devido às falhas nos controles referentes à proteção do trabalho. Ele reconheceu que, embora o lugar estivesse habilitado como oficina, na fábrica havia "práticas sinistras e redução à escravidão". O ministro da produção do governo portenho, Enrique Rodríguez, qualificou o fato de "gravíssimo". Segundo ele, além de denunciar a existência de uma máfia, há evidências de que os bolivianos são submetidos à condição de escravos. O responsável pela União dos Trabalhadores Costureiros, Gustavo Vera, assegurou que na capital argentina funcionam 110 oficinas têxteis clandestinas nas quais trabalham mais de mil pessoas, e essa cifra "se multiplica por três ou quatro" se contarem os filhos dos empregados. No Brasil No dia 12 de março, o Estado publicou uma reportagem exclusiva sobre a entrada ilegal de bolivianos no Brasil e o trabalho escravo que realizam em São Paulo. Não há números oficiais da imigração irregular, mas a estimativa é de 60 mil bolivianos "indocumentados" em São Paulo, sendo 21.989 na capital. A negociação clandestina é feita por intermediários que lembram os coiotes mexicanos. O pagamento é feito antes da chegada no território brasileiro e outros encarregados do esquema cuidam de encaminhar os bolivianos aos postos de trabalho. A justifica dos trabalhadores para se arriscar tanto é a esperança de mudar de vida, mas ao chegar na metrópole, a realidade é outra para todos eles.

Agencia Estado,

31 Março 2006 | 14h56

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