Morte de britânico esconde jogo de poder na China

Caso do empresário Neil Heywood, ligado a figura-chave do PC chinês afastado em março, envolve luta para definir o destino do regime de Pequim

SHARON LA FRANIERE, JOHN F. BURNS, THE NEW YORK TIMES , O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2012 | 03h06

Em uma igreja no distrito londrino de Battersea, às margens do Tâmisa, os enlutados que se reuniram para o funeral de Neil Heywood, poucos antes do Natal, ficaram perplexos com as instruções fornecidas por um dos colegas do falecido da época do internato Harrow, frequentado pela elite britânica. Ele lhes pediu que não conversassem com Lulu Heywood, a viúva chinesa, e ficassem nos bancos até que ela e os dois filhos partissem.

A elegia do colega de classe do defunto não mencionava o motivo da morte súbita de um homem de 41 anos que parecia ter boa saúde. E ninguém pôde questionar a família do morto a respeito da causa do episódio.

"Foi tudo muito estranho", disse um dos presentes ao funeral, que, como muitas das pessoas ligadas a Heywood, pediu anonimato. "Foram muitas perguntas e muitas lágrimas. Já passamos por muitos funerais, mas nunca vivemos nada desse tipo."

Essa descrição parece agora um eufemismo. Desde terça-feira, quando o Partido Comunistas chinês disse que Gu Kailai, mulher de um membro suspenso do Politburo, estava sendo investigada pelo "homicídio doloso" de Heywood, tudo o que pensávamos saber a respeito de sua vida passou a ser questionado. O relato oficial, ainda pouco claro, diz apenas que Gu e um empregado são suspeitos de terem assassinado Heywood.

Os laços de Heywood com Bo Xilai, o líder afastado do Politburo, e a mulher e o filho dele - um relacionamento que o distinguia do restante dos estrangeiros que tentam a sorte na China - podem ter lhe custado a vida e desencadeado na China o maior escândalo político da atual geração. Mas ainda sabemos tão pouco quanto os presentes no funeral de dezembro a respeito de como e por que ele morreu.

Depois que a polícia achou o corpo de Heywood num hotel da cidade de Chongqing, no sudoeste da China, representantes do governo disseram à Grã-Bretanha que ele morreu de intoxicação por álcool. A família dele, levada a crer que Heywood tinha morrido de ataque cardíaco, diz que ele não consumia nem uma gota de bebida alcoólica.

Independente desde os dias de escola na Grã-Bretanha, Heywood parece ter conhecido a família Bo na cidade de Dalian, nordeste da China, para onde se mudou no início da década de 90, lecionando inglês. Ele disse ao jornalista britânico Tom Reed que enviou numerosas cartas de apresentação a funcionários do governo chinês na tentativa de estabelecer elos com a elite do país. Bo, então prefeito de Dalian, teria respondido.

Bo e Gu, um casal carismático e ambicioso cujo pedigree e influência vinham dos laços com Mao Tsé-tung, parecem ter procurado o mesmo que muitas outras famílias ricas da China - o acesso ao ensino ocidental para seus filhos. Gu disse, em 2009, que ela e Bo tinham escolhido para o filho a Escola Harrow, mas o menino não foi aceito. Heywood, formado no internato, disse a amigos que atuava como "mentor" do jovem, Bo Guagua.

Reed disse que Heywood parecia gostar mesmo do jovem. Mas, ao revelar que Gu é agora alvo de uma investigação de homicídio, o governo chinês destacou que ela e o filho tinham algum tipo de relacionamento de negócios com Heywood e um conflito entre eles tinha se agravado antes da morte do britânico. Há quem sugira que Heywood atuava como intermediário dos interesses da família Bo.

Heywood teria se afastado da família em algum momento de 2010. Ele supostamente não via Bo Xilai desde 2009, mantendo apenas contato ocasional com Bo Guagua, hoje estudante de Harvard. Para Heywood, alguém no círculo de Bo Xilai tinha começado a suspeitar de sua influência sobre Bo, então secretário do partido em Chongqing, encontrando uma maneira de afastá-los.

Conhecidos disseram que o britânico era cuidadoso em não revelar exatamente como havia se vinculado à família Bo. E ninguém explicou por que, após um ano afastado dos Bo, ele surgiu em novembro em Chongqing, a região provincial que Bo Xilai presidia como chefe do partido.

Naquele período, Bo, que estava interessado num assento no Comitê Permanente de nove membros, o órgão de mais alto escalão do Partido Comunista, esteve sob investigação da Comissão de Inspeção Disciplinar da China. Seu chefe de polícia escolhido a dedo, Wang Lijun, semeava o medo na cidade com uma repressão desenfreada ao crime organizado - tão intensa a ponto de chamar a atenção nacional para Bo, que também estava sendo investigado.

Segundo um relato, Wang foi convocado a Pequim para apresentar evidências contra Bo que depois vazaram ou foram passadas ao próprio Bo. Pode ter sido isso que deu início a um jogo de vingança entre os dois homens, levando à decisão de Wang de procurar refúgio num consulado americano a cerca de 320 quilômetros de Chongqing.

Nos meses seguintes à morte de Heywood, alguns amigos seus recorreram ao Facebook. Uma possibilidade que eles citaram, em geral negando-a, foi a de que ele fosse um agente do serviço secreto britânico.

"A ideia de que ele tinha uma vida de aventuras devia lhe agradar", disse um amigo. "Penso que a maioria de nós que conhecia Neil tinha a sensação de que a verdade era provavelmente muito mais prosaica." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL E CELSO PACIORNIK

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