Morte de Cano gera clima de 'triunfo' em opinião pública colombiana

Operação que matou líder das Farc é principal destaque da imprensa do país; governo e analistas pedem cautela.

Leandra Felipe, BBC

05 de novembro de 2011 | 14h45

Poucas horas depois do anúncio da morte de Alfonso Cano, número um das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC), o assunto se transformou no principal destaque da imprensa colombiana.

Jornais, agências de notícia e emissoras de televisão exibem fotografias e imagens do corpo do guerrilheiro morto e especulam sobre o impacto de sua morte para o grupo armado e possíveis nomes para assumir o lugar deixado por Cano.

Nas redes sociais, o tema também é o mais comentado deste sábado. No Twitter o assunto está no topo das discussões dos internautas. Grande parte das manifestações é de comemoração.

"Parabéns ao Exército pela cabeça de Cano", ou "um terrorista a menos no mundo" estão entre as comemorações postadas. Outros, mais cautelosos, lembram que "ainda existem vários sequestrados em poder da guerrilha" e que "as Farc não acabam enquanto não houver negociação de paz".

Analistas ouvidos pela BBC Brasil avaliam que a postura triunfalista, tanto na cobertura da imprensa como nas manifestações da opinião pública refletem os conceitos que foram construídos pela política de segurança no governo anterior, de Álvaro Uribe, e mantida por Juan Manuel Santos.

"Desse ponto de vista cimentado por Uribe, de que as FARC são um grupo terrorista que precisa ser eliminado, a morte de Alfonso Cano é muito significativa. Representa o triunfo da política de segurança e da força militar do governo", disse o escritor e especialista em conflitos, Victor de Currea Lugo.

Segundo ele, outro fator que contribui para que a opinião pública comemore a queda de Cano é o fato de a guerrilha ter se afastado de seus ideais políticos e se envolvido com o narcotráfico e ações terroristas.

"A ideia das FARC como movimento de esquerda e de libertação tinha simpatizantes. Existia um diálogo entre eles e a sociedade. Mas com o distanciamento da guerrilha desses valores, o envolvimento com o narcotráfico, sequestros, uso de granadas e minas terrestres contra civis, a sociedade civil passou a vê-los de maneira negativa", afirmou.

O líder das Farc, Alfonso Cano, foi morto em uma operação militar realizada em um acampamento do grupo.

Cautela

O analista afirma que apesar da sensação de vitória que a sociedade vive, o governo de Santos tem o desafio de tirar proveito dessa conquista sem desqualificar o potencial de reação das FARC.

"A morte de Cano é uma resposta de Santos a setores da sociedade que esperavam por resultados da política de segurança e também seu fortalecimento diante de seus opositores que o criticavam por falta de resultados nesta área. Mas ele tem que ser hábil também para conter a ideia de que a batalha foi vencida e que as FARC vão acabar", comenta.

"Santos foi ministro de Defesa e conhece bem as FARC. Ele sabe que morte de Cano pode ser um duro golpe, mas não significa que eles não tem mais o poder militar. O presidente sabe que virão retaliações e ataques. O que ele não quer é ser cobrado por isso depois", acrescentou Victor de Currea Lugo.

Comando

Outro ponto que deve ser observado agora, segundo os analistas ouvidos pela BBC Brasil, é a nova configuração que as FARC irão definir. De um lado, a guerrilha pode, hierarquicamente, escolher um novo líder, ou não conseguir chegar a um consenso e se fragmentar.

"Dentro da hierarquia das FARC há alguns nomes que podem chegar ao comando. Mas são muitas tendências regionais e frentes que atuam de maneira autônoma, por isso existe o risco de que o grupo se fragmente e se aproxime cada vez mais da criminalidade comum", alerta Currea.

A mesma opinião é compartilhada pela vice-diretora da Fundação Rázon Pública, Maria Victória Duque, que analisa o conflito armado na Colômbia e negociações pela paz.

"Se as FARC não conseguirem manter sua coesão e ocorrer a fragmentação, vai ficar ainda mais difícil dialogar e realmente iniciar um processo de paz", afirmou a analista.

Segundo ela, nos últimos meses, tanto o governo como as próprias FARC vinham dando demonstrações de possibilidade de negociação pela paz. Com a morte de Cano, esse diálogo pode ou não ser estabelecido.

"Ambos os lados demostraram que havia disposição para dialogar, mas o processo de paz não foi iniciado. Agora temos que esperar para saber se a morte de Cano será ou não favorável a este processo, ou se irá desencadear uma reformulação mais radical da guerrilha", disse Duque. BBC Brasil - Todos os direitos reservados. É proibido todo tipo de reprodução sem autorização por escrito da BBC.

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