Morte de civis atinge número recorde no Iraque

O número de civis iraquianos mortos em julho e agosto atingiu a marca de 6.599, um recorde muito maior do que as estimativas sugeriam, segundo informações das Nações Unidas divulgadas nesta quinta-feira.O relatório da Missão de Assistência da ONU do escritório de Direitos Humanos no Iraque destacou a crise sectária que assola o país, oferecendo uma avaliação sinistra a partir de uma série de indicadores - evidências de tortura, detenções ilegais, crescimento de milícias sectárias e de esquadrões da morte, e o aumento de "assassinatos de honra" de mulheres.Os acontecimentos trazem novas questões sobre a capacidade das forças de segurança iraquianas e americanas de trazer a paz à Bagdá, onde ocorre a grande maioria das mortes. O governo do Iraque, instaurado em 2006, "enfrenta um colapso da lei e da ordem, o que se apresenta como um sério desafio às instituições do Iraque", afirma o documento. De acordo com a ONU, que divulga números a cada dois meses, as mortes violentas de civis em julho atingiram o nível sem precedentes de 3.590, uma média mais alta do que 100 por dia. O número de agosto é de 3.009, segundo o relatório.O número mais baixo de agosto em relação a julho pode ser o resultado do recrudescimento da segurança em Bagdá, apesar de haver um crescimento nos ataques em outros locais, inclusive na cidade de Mossul.No período anterior, a ONU havia relatado menos de seis mil mortes, 2.669, e 3.149. O que já foi mais que os 1.129 em abril e 710 em janeiro. Do total de julho e agosto, o relatório disse que 5.106 mortes foram em Bagdá.O relatório atribuiu muitas mortes ao aumento da tensão sectária que empurram o Iraque na direção de uma guerra civil."Esses números refletem o fato de que o assassinato indiscriminado de civis continua por todo o país enquanto centenas de corpos aparecem com sinais de tortura e execução", afirma o relatório. "Tais assassinatos são cometidos por esquadrões da morte ou por grupos armados, com conotações de vingança sectária".As estatísticas da ONU têm duas origens: os números do ministério da Saúde, que registra as mortes em hospitais, e do instituto médico-legal de Bagdá, que registra os corpos sem identificação que recebe. Os investigadores da ONU que compilaram o relatório disseram que é provável que esses números não contemplam todas as mortes. Em julho, por exemplo, o ministério da Saúde reportou que ninguém foi assassinado em Anbar, uma província caótica que inclui as cidades de Ramadi e Faluja, extremamente violentas. O exército norte-americano havia alegado um queda drástica no número de mortes de agosto, mas a estimativa foi revisada após os EUA terem revelado não ter contado as pessoas mortas por bombas, morteiros, foguetes, ou outros ataques em massa.O relatório afirma que a tortura é uma das principais preocupações no Iraque, e os corpos mostram evidências significativas da prática."Corpos encontrados no instituto médico-legal normalmente têm sinais de tortura severa, incluindo ferimentos e queimaduras causados por substâncias químicas ácidas, pele retirada, ossos quebrados (coluna, mãos e pernas), olhos e dentes retirados, e ferimentos causados por furadeiras e pregos", afirma o relatório. Em outros assuntos, o relatório retrata um panorama igualmente sinistro. Ele afirma que aproximadamente 300 mil pessoas foram desalojadas no Iraque desde o bombardeio de um local sagrado em Samarra, em fevereiro, e relata o aumento dos assassinatos de honra de mulheres.A ONU também recebeu vários relatos de jornalistas iraquianos sendo processados por suas matérias. Em um dos casos, três repórteres de um jornal foram a julgamento por criticar um governo regional e por acusar a polícia e o sistema judicial da região por violar direitos humanos básicos.PrisõesO relatório afirma que mais de 35 mil iraquianos estão presos, sendo que 13.571 por forças internacionais. O total de presos representa um aumento de 28% em relação ao final de junho.O relator especial da ONU recebeu denúncias de tortura em prisões administradas pelos ministérios do Interior e da Defesa do Iraque, e também das sob controle multinacional. Organizações não-governamentais "expressaram sua frustração com a situação atual e enfatizaram a necessidade urgente da intervenção da ONU e de outras entidades internacionais para prevenir mais violações dos direitos humanos", afirma o relatório.No entanto, o relator especial da ONU para tortura Manfred Nowak não pode ir ao Iraque pois o governo não providenciou o convite necessário, diz o relatório.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.