Morte de espião em prisão causa escândalo em Israel

História de australiano ligado ao Mossad que se suicidou em cárcere secreto vem à tona apesar de censura

JERUSALÉM, O Estado de S.Paulo

14 de fevereiro de 2013 | 02h07

Israel está às voltas com o misterioso caso de um agente do serviço secreto que teria se suicidado numa prisão de segurança máxima. Uma ordem judicial suspendeu ontem a censura imposta à imprensa israelense, que vinha sendo impedida de divulgar do caso. O governo de Israel confirmou que deteve um cidadão com dupla cidadania, uma delas israelense, que cometeu suicídio.

Os primeiros relatos sobre a morte do Prisioneiro X vazaram em 2010 nos EUA, onde um blogueiro o identificou como um ex-general iraniano. Censores do governo imediatamente obrigaram um site de notícias israelense a retirar comentários relacionados a ele e jornalistas foram interrogados sobre o tema pela polícia. Na terça-feira, após uma TV da Austrália identificá-lo como um australiano que se tornou espião de Israel, o premiê Binyamin Netanyahu convocou editores para lembrá-los da ordem judicial impedindo a publicação de qualquer coisa ligada ao tema.

Não fica claro o que o Prisioneiro X teria feito para merecer tal tratamento. O que está claro é que o panorama da mídia moderna torna a censura israelense porosa: a reportagem rapidamente circulou pela mídia social, provocando reação da oposição. "Cedo ou tarde, os israelenses saberão o que houve", disse Nahman Shai, do Partido Trabalhista.

Aluf Benn, editor do jornal Haaretz, disse que foi obrigado pelo governo a deletar matérias sobre a reportagem. Mais tarde, o diário postou um artigo sobre a reunião de editores e a discussão parlamentar. "Eles vivem no século passado", disse Benn. "Hoje, o que é barrado em sites chega ao ar no Facebook ou Twitter."

A reportagem identificou o Prisioneiro X como Ben Zygier, que imigrou para Israel uma década antes de sua morte, aos 34 anos. Sua prisão foi tão secreta que nem os guardas conheciam sua identidade. Ele foi encontrado enforcado numa cela com sistema de vigilância avançado e foi sepultado uma semana depois em Melbourne. Uma porta-voz do governo australiano disse que sua embaixada não foi informada sobre a detenção até sua família pedir ajuda para repatriar seus restos mortais. O Prisioneiro X morreu na Prisão Ayalon, criada especialmente para Yigal Amir, que matou o premiê Yitzhak Rabin, em 1995.

Dov Hanin, do Partido Hadash, questionou o ministro da Justiça de Israel, Yaakov Neeman, sobre o Prisioneiro X: "Há pessoas cuja prisão é mantida em segredo? Neeman respondeu que o tema não era de sua conta. Há muito que Israel usa um censor militar e se recusa a admitir certas operações. Duas semanas atrás, a ONG Repórteres Sem Fronteira situou o país em 112º lugar entre 179 em seu índice anual de liberdade de imprensa.

O jornalista Ronen Bergman disse que teve informação sobre o Prisioneiro X, mas não pôde compartilhá-la em razão da ordem de silêncio. Três ex-diretores do Mossad também se recusaram a comentar o caso. "É sobre isso que quer conversar? Sem chance", disse Danny Yatom, que chefiou a agência nos anos 90. / NYT

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