Morte de espião pôs Moscou e Londres em rota de choque

Países trocam acusações relacionadas a envenenamento de ex-agente da KGB

Luke Harding e Julian Borger

14 Julho 2007 | 00h34

A Grã-Bretanha está prestes a entrar numa crise diplomática com a Rússia, que poderá levar à expulsão de diversos diplomatas em Londres e represálias na mesma proporção por parte de Moscou. O ministério britânico das Relações Exteriores e o gabinete do primeiro ministro, em Downing Street, pretendem enviar um sinal rigoroso para o Kremlin, que recusou-se a extraditar Andrei Lugovoi, ex-agente da KGB suspeito de assassinar Alexander Litvinenko em novembro passado. Na segunda-feira, 9, a promotoria russa anunciou oficialmente que Lugovoi não será enviado para a Grã-Bretanha, alegando que a Constituição da Rússia proíbe a sua extradição. Na noite de quarta-feira, 11, o governo britânico estava analisando a adoção de medidas de retaliação, para mostrar seu extremo desagrado com a decisão do Kremlin e a seriedade com que a Grã-Bretanha vem tratando o "terrível" assassinato de Litvinenko - um cidadão britânico e crítico feroz do presidente Vladimir Putin. Uma das medidas seria a expulsão de diplomatas russos da embaixada em Londres e a suspensão da cooperação mantida com a Rússia em diversas áreas, como educação, comércio, assuntos sociais e contraterrorismo. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da Rússia, Michail Kamynin, advertiu que Londres coloca em risco seu relacionamento com Moscou. "Não compreendo a posição do governo britânico. Mostra-se disposto a sacrificar nossas relações no campo da educação e do comércio, no interesse de um homem", afirmou, acrescentando que "nossa posição está absolutamente de acordo com a Constituição e a legislação russas". De acordo com autoridades britânicas, o ministro das Relações Exteriores, David Miliband, está estudando as opções. Qualquer decisão, porém, só será anunciada na próxima semana, quando o ministério apresentará um relatório ao Parlamento, apresentando as medidas punitivas a serem adotadas pela Grã-Bretanha. Autoridades do ministério já se preparam para as represálias violentas e imediatas de Moscou, que podem incluir uma similar expulsão de diplomatas do Reino Unido. O presidente Putin, mostrando sua cólera, qualificou o pedido de extradição de Lugovoi pela Grã-Bretanha de "estupidez". O Kremlin já iniciou uma campanha de intimidação e assédio contra o embaixador britânico em Moscou, Tony Brenton, levada a cabo por ativistas do grupo de jovens russos conhecido como Naschi. Manifestantes pró-Kremlin realizaram piquetes diante da embaixada britânica, interceptaram o carro do embaixador e interromperam seus discursos. Essa campanha se estendeu para o Conselho Britânico, que foi vasculhado de surpresa por funcionários da receita mascarados. E no mês passado o Conselho recebeu ordens para sair do edifício onde mantém seus escritórios, na cidade de Yekaterinburgo. Ao mesmo tempo, as empresas BP e Shell foram forçadas a ceder importantes ativos na área do gás para a empresa estatal russa Gazprom. Desde maio, quando a promotoria britânica acusou Lugovoi de assassinato, o Kremlin tem encorajado a mídia russa a culpar o oligarca russo Boris Berezovski e o MI6 (serviço secreto britânico) pelo assassinato do ex-agente soviético. Os canais de televisão também exibiram longas entrevistas com um russo que afirmou que o MI6 tentou contratá-lo e que Litvinenko se envenenou. Lugovoi culpa Blair Numa coletiva de imprensa surreal em Moscou, Lugovoi declarou que os responsáveis pelo assassinato eram Tony Blair, Berezovski e a máfia georgiana. Em Downing Street, as autoridades acham que, se quisesse, o Kremlin poderia extraditar Lugovoi. A Grã-Bretanha quer que Moscou pelo menos deixe claro que lamenta a morte de Litvinenko e garanta que isso não deverá acontecer novamente. Mas não houve nenhum sinal nesse sentido por parte de Moscou. O diretor da promotoria pública britânica, Sir Ken McDonald QC, disse que não é "aceitável" que Lugovoi seja processado na Rússia, uma vez que o sistema judiciário nesse país se submete à pressão política. Na terça-feira, Gordon Brown se disse frustrado com a atitude de Moscou. De acordo com seu porta-voz, "a recusa da Rússia a extraditar Lugovoi é decepcionante. Lamentamos profundamente que o país não tenha mostrado a necessária cooperação". Putin está pessoalmente indignado porque a Grã-Bretanha não extraditou Berezovski para Moscou, onde ele é acusado de lavagem de dinheiro e de ter armado um complô para derrubar o presidente. Litvinenko, que vivia ao norte de Londres com a esposa e seu filho, morreu em novembro, aos 44 anos anos, três semanas depois de ser envenenado no hotel Millennium, em Mayfair, região londrina, com polônio-210, uma substância radioativa . Seus companheiros disseram, posteriormente, que ele deixou uma carta acusando Putin de estar por trás do seu envenenamento.

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