Morte de Giuliani ainda repercute na França

Todos a Bruxelas em dezembro, todos a Porto Alegre em janeiro. Esse slogan, repetido durante toda a passeata de protesto desta quinta-feira em Paris contra a repressão e a manutenção de 220 manifestantes europeus em prisões italianas, revela que o Brasil entrou definitivamente no circuito internacional dos protestos contra a globalização. Esses são os dois principais encontros agendados por numerosas organizações não-governamentais, incluindo o grupo Attac, que deverão dar seqüência à luta contra a globalização. Em Bruxelas haverá a cúpula da União Européia no fim do ano e, no sul do Brasil, no início de 2002, o Fórum Social de Porto Alegre. A cada dia, esses protestos nascidos da sociedade civil recebem maior apoio de partidos políticos tradicionais de esquerda, que até agora se mantinham distantes, temendo perder sua influência. Hoje, eles não podem mais desconhecer a existência dessas ONGs cada vez mais ativas social e politicamente. Esse é o caso do Partido Comunista Francês e também de partidos esquerdistas como Lutte Ouvrière e LCR, a Liga Comunista Revolucionária. Nesta quinta-feira, todos estavam representados na passeata que saiu da Estação de Montparnasse. Outros movimentos participaram da manifestação: Act Up, Liga dos Direitos do Homem, Aarg (Aprendizes Agitadores para a Resistência Global e Confederação Camponesa de José Bové, entre outros. O próprio Partido Socialista, atualmente no poder, lamenta ter estado ausente da passeata pacífica de 200 mil pessoas em Gênova. Seu porta-voz, Vicent Peillon, afirmou que "os valores que defendem os manifestantes são os mesmos dos socialistas". A seu ver, os contestadores são profundamente reformistas e não suportam mais a diferença entre os princípios enunciados pelos Estados democráticos e a realidade das práticas desses Estados. Para o ministro de Finanças da França, Bernard Kouchner, assistimos no fim de semana em Gênova a um "maio de 1968 mundial", mas sua opinião não chega a ser unânime. Uma diferença, segundo um dirigente da LCR, é fundamental: "Em maio de 68 foram os estudantes que montaram as barricadas. Desta vez, foram os policiais italianos." Para um analista político do Instituto Francês de Relações Internacionais, Eddy Fougier, o marco principal foi a reunião da Organização Mundial do Comércio no ano passado. "Em Seattle se constituiu uma coalizão de interesses entre os movimentos pacíficos de massa (sindicatos, associações de consumidores, etc.) e grupos radicais ou anarquistas," disse. Essa aliança estratégica produziu alguns resultados, mas hoje, a seu ver, está ameaçada de implosão pelo choque entre o pacifismo de uns e a violência de outros. Na véspera da cúpula do G-8 em Gênova, organizações ambientalistas como os Amigos da Terra e o Greenpeace anunciaram sua ausência. Um dirigente do Greenpeace explicou a decisão lembrando que a palavra "paz" integra a denominação de sua organização, reprovando as "derrapagens". Vários setores do grupo Attac têm condenado abertamente o uso da violência por militantes de grupos mais radicais. Entretanto, segundo informações divulgadas nesta quinta-feira pelo jornal italiano Secolo 21, um documento secreto da polícia da Itália admite a participação de radicais de direita nos protestos em Gênova durante a reunião do G-8. O objetivo desses homens - entre eles, pelo menos 25 membros do grupo radical italiano Forza Nuova - teria sido o de atacar as forças de segurança e, com isso, pôr a polícia e a opinião pública contra a esquerda.

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