Morte de líder das Farc contamina eleição venezuelana

Opositores e meios de comunicação críticos do governo trazem à tona denúncias de supostos vínculos de Chávez com o rebelde

Roberto Lameirinhas, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2010 | 00h00

A morte do líder militar da guerrilha Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), conhecido como "Mono Jojoy", infiltrou-se ontem na campanha venezuelana para as eleições de amanhã, que indicarão todos os 165 deputados para a Assembleia Nacional, a câmara única do Legislativo da Venezuela. Cauteloso, o governo Hugo Chávez manteve ontem discrição sobre a operação militar colombiana.

Na direção contrária, porém, representantes da oposição e meios de comunicação críticos do governo trouxeram à tona as denúncias de supostos vínculos de Chávez com o chefe guerrilheiro, considerado o mentor dos sequestros, atentados e operações de narcotráfico das Farc.

O jornal de Caracas El Universal trouxe em sua edição de ontem uma nota sobre uma suposta reunião entre "Jojoy" e emissários do governo venezuelano que estariam negociando o fornecimento de armas para as Farc. O registro do encontro estaria entre as dezenas de milhares de arquivos de computador de outro chefe guerrilheiro, Raúl Reyes, morto por um ataque militar colombiano em território do Equador, em março de 2008.

Em Caracas para a cobertura das eleições, o ex-vice-presidente colombiano Francisco Santos - diretor da emissora de Bogotá RCN - evitou citar diretamente Chávez ou seus ministros, mas declarou que "os líderes das Farc teriam caído muito antes se não tivessem refúgio seguro nos países vizinhos".

Santos sugeriu ainda que outro alto dirigente do "secretariado" das Farc, Iván Márquez, estaria em outro país. Em declarações posteriores, Santos lembrou que "o ex-presidente (colombiano) Álvaro Uribe notificou reiteradas vezes ao governo venezuelano sobre a presença de narcoterroristas das Farc em seu território".

O site do jornal El Nacional, também de Caracas, publicou um vídeo de "Jojoy" no qual ele se dirigia a Chávez, manifestava apoio à sua "revolução bolivariana", mas pedia que retirasse suas tropas da fronteira com a Colômbia. O vídeo teria sido gravado após a captura de Rodrigo Granda, o "chanceler" das Farc, em Caracas, em 2004.

"O fato é que armas suecas compradas pela Venezuela apareceram em acampamentos da guerrilha após ataques do Exército da Colômbia, pelo menos um dirigente das Farc (Granda) foi capturado em Caracas e há relatos de comerciantes de Táchira (na fronteira com a Colômbia) forçados a pagar "imposto" para os guerrilheiros", disse ao Estado o cientista político Alberto Carrasquero.

"O governo defende-se listando alguns guerrilheiros colombianos presos em território venezuelano. De todo modo, o efeito eleitoral dessas declarações a dois dias da votação não deve ser significativo."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.