Morte de líder libanês pode afetar negociações no Iraque

Após emergir dos 33 dias de bombardeios que marcaram a recente guerra entre o Hezbollah e Israel, o Líbano encontra-se agora em meio a uma das mais graves crises políticas de sua história recente. Para muitos analistas, no entanto, a tensão provocada pelo assassinato do líder cristão anti-Síria Pierre Gemayel, nesta terça-feira, terá um impacto regional e global mais amplo, que pode resultar em mais uma derrota para os esforços de paz e conciliação no Oriente Médio. Gemayel estava entre os membros remanescentes de um enfraquecido gabinete de governo, formado por uma maioria anti-Síria, mas que contava também com ministros ligados ou aliados ao Hezbollah - que é financiado pela Síria e pelo Irã. Em 11 de novembro, seis desses políticos - dois do Hezbollah, três xiitas e um aliado dessa minoria - abandonaram o governo com o objetivo de enfraquecer o primeiro-ministro apoiado pelos Estados Unidos, Fouad Siniora. Para a maioria dos analistas, a manobra visava obstruir a instalação de um tribunal internacional que investigará o assassinato do ex-premier Rafik Hariri, morto em um atentado a bomba perpetrado em fevereiro de 2005. Estima-se que o governo sírio esteja envolvido no crime. Nesse sentido, para figuras como o político libanês de origem brasileira Carlos Eddé, que preside o Partido Bloco Nacional libanês e endossa a plataforma do grupo 14 de Março - bancada anti-Síria no Parlamento - está claro que o crime desta terça-feira visava enfraquecer ainda mais Siniora. "As forças pró-Síria já vinham ameaçando transformar o Líbano no caos para impedir a criação do tribunal internacional", disse ele em entrevista telefônica ao Portal Estadão.com.br. Não por acaso, o Líder do Hezbollah, Hasan Nasrallah, disse no domingo que o governo terá que fazer uma opção: ou renuncia em favor do que ele chamou de um governo de união nacional ou antecipa as eleições parlamentares. Caso não atenda a essas demandas, alertou Nasrallah, o gabinete de Siniora terá que enfrentar dias, talvez semanas, de protestos direcionados a derrubar o governo. Contexto global Mas, embora o crime tenha acontecido dentro de um contexto de disputas políticas internas, ele também aconteceu poucas horas após a Síria anunciar o restabelecimento de relações diplomáticas com o Iraque. A aproximação entre os dois governos, com o intermédio do Irã, era uma das esperanças para a criação de um ambiente favorável para o começo da pacificação da turbulenta situação do Iraque. Nesse sentido, além de demonstrar a ingerência da Síria e do Irã na política libanesa, o assassinato de Gemayel diminui as chances de que os Estados Unidos mudem suas posições históricas e se aproximem dos dois países com o objetivo de ajudar a pacificar o Iraque. Ainda assim, a Síria e o Irã foram rápidos em condenar o assassinato. Mas os Estados Unidos também foram claros em seu ceticismo: o subsecretário de Estado, Nicholas Burns, sublinhou que o grupo pró-Síria Hezbollah vive um tenso impasse com o governo apoiado pelos EUA, ao qual Gemayel pertencia. Na verdade, destacou Burns, o Hezbollah tem ameaçado derrubar o governo. Já o líder da maioria anti-Síria no parlamento libanês, Saad Hariri, foi taxativo em apontar os culpados. "Nós acreditamos que as mãos da Síria estão em todo lugar", disse o filho do ex-premier Hariri, cujo assassinato em 2005 culminou na retirada do Exército sírio do Líbano. Perigos Para a editora de Oriente Médio da agência de notícias Associated Press, Sally Buzbee, não há dúvidas, portanto, de que o assassinato está no centro de uma das mais perigosas tendências da região atualmente. Qual seja: a rivalidade entre países e grupos aliados aos Estados Unidos - como a Jordânia, o Egito e o Líbano - e aqueles alinhados ao Irã - como a Síria e o Hezbollah. Ainda na avaliação de Buzbee, o mais urgente disso tudo é que essa rivalidade ganha força no Iraque. Isso porque estima-se que tanto a Síria quanto o Irã tenham papéis desestabilizadores no conflito iraquiano; segundo os Estados Unidos, esses países financiam a insurgência e facilitam a entrada de combatentes estrangeiros no país árabe. Essa avaliação têm levado muitos líderes ocidentais, como o primeiro ministro britânico, Tony Blair, a incentivar uma aproximação com a Síria e o Irã. E a pressão parecia começar a encontrar respaldo inclusive junto a líderes ligados à administração do presidente americano, George W. Bush. Acredita-se que o respeitado Grupo de Estudos Iraquianos - liderado pelo ex-secretário de Estado americano James Baker III - faça recomendações nesse sentido em seu relatório, que deve ser apresentado a Bush em breve. A questão agora é como os eventos desta terça-feira afetarão essa tendência.

Agencia Estado,

21 Novembro 2006 | 21h01

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