Morte de líder pró-apartheid teria motivação sexual

Acusados de terem matado o extremista sul-africano Terreblanche alegam que estavam se protegendo de suas ''investidas homossexuais''

Cristiano Dias, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2010 | 00h00

A polícia sul-africana admitiu ontem, pela primeira vez, que investiga a possibilidade de haver uma motivação sexual para o assassinato do líder supremacista branco Eugene Terreblanche, morto a pauladas na semana passada. A defesa dos acusados alega que eles estavam se protegendo das "investidas homossexuais de Terreblanche".

"Há um forte componente de sodomia que levou ao homicídio", disse Puna Moroko, um dos advogados dos dois negros, um de 27 e outro de 15 anos, que trabalhavam para o fundador do Movimento de Resistência Africâner (AWB).

Terreblanche foi morto no dia 3, na casa dele, no vilarejo de Ventersdorp, norte do país. Ele foi encontrado na cama com as calças abaixadas até os joelhos. No chão do quarto foi encontrado um preservativo usado.

No início, a polícia negou que houvesse um preservativo na cena do crime. Ontem, porém, o tenente Jan Mabula, um dos responsáveis pela investigação, disse que "nenhuma hipótese está descartada". Os rumores ganharam ainda mais força depois que a polícia formalizou contra os dois negros a acusação de injúria, que no direito sul-africano envolve algum tipo de abuso sexual da vítima.

O líder dos extremistas sul-africanos era conhecido pelo ódio que tinha dos negros. Em 2001, foi sentenciado a 6 anos de cadeia por tentativa de assassinato. Cumpriu 3 anos na prisão de Rooigrond, onde havia apenas mais dois brancos.

De acordo com a última edição do semanário africâner Rapport, nos últimos anos ele circulava com adolescentes, brancos e negros - um jovem membro do AWB, segundo o jornal, frequentava sua casa, onde sofria abusos sexuais.

O AWB divulgou nota ontem refutando as especulações sobre a morte de seu líder e voltou a acusar Julius Malema, presidente da Liga Jovem do Congresso Nacional Africano (CNA), partido governista. Segundo os extremistas, Malema é responsável pelo crime porque sempre canta em seus comícios a música Shoot the boer ("Atire no bôer"), que prega a violência contra os fazendeiros brancos.

Malema virou um alvo fácil. Ontem, o CNA condenou publicamente seu comportamento. A principal associação de jornalistas do país elogiou o partido governista e também criticou o líder estudantil. O mesmo fez um influente grupo de líderes religiosos. Nem mesmo o presidente Jacob Zuma deixou de puxar as orelhas de Malema, um histórico aliado.

"Os líderes do CNA devem pensar antes de falar", disse Zuma. Apesar das duras críticas, o presidente não exonerou nem suspendeu o líder estudantil de suas funções. Segundo analistas, a Liga Jovem do CNA é conhecida por levar eleitores às urnas - o voto não é obrigatório na África do Sul - e, com eleições municipais à vista, a última coisa que Zuma quer é arrumar briga com os estudantes.

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