via The New York Times
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Morte de paramédica vira símbolo da fúria popular no Líbano

Mulher de 24 anos que estava noiva catalisa  todo o sofrimento da população após tragédia 

Maria Abi-Habib / The New York Times , O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2020 | 03h00

BEIRUTE - Na quinta-feira, o noivo e a família de Sahar Fares deram a ela a festa de casamento que ela nunca mais poderá ter. Havia banda de música, com um flautista tocando melodia alegre e tambores ritmados, enquanto parentes e amigos jogavam arroz e pétalas de flores. Os músicos, vestidos com roupas brancas bordadas com fios dourados, seguiam os bombeiros, que carregavam o caixão branco de Fares para um carro funerário.

Seu noivo, Gilbert Karaan, sentou-se sobre os ombros de um parente chorando, enquanto acenava para se despedir pela última vez, mandando um beijo final. “Tudo o que você queria estará presente, exceto você em um vestido de noiva branco”, prometeu Karaan, em tributo publicado em uma rede social. “Você se foi, meu amor, partiu meu coração. A vida não tem mais graça.”

“Eu te amei, te amo e sempre te amarei”, continuou, “até que eu me reencontre com você, onde continuaremos nossa jornada juntos”.

Fares, paramédica de 24 anos, foi uma das mais de 150 pessoas que morreram na explosão que atingiu o porto de Beirute, devastou bairros inteiros, feriu mais de 5 mil e deixou 300 mil desabrigados. Em uma fração de segundos, o estouro deixou a capital do Líbano parecendo uma zona de guerra sem que houvesse uma. 

Cada morte é uma tragédia única, mas a história de Fares, a jovem noiva, se espalhou pela internet, catalisando a atenção e o sofrimento de muitos libaneses. Na noite de terça-feira, ela ligou para Karaan para mostrar o incêndio que consumia um armazém no porto de Beirute. Ninguém precisava de atenção médica, então ela se sentou em um carro de bombeiros, observando seus colegas, enquanto eles tentavam apagar as chamas.

Quando o rugido se intensificou, ela desceu do caminhão segurando o celular para dar ao noivo uma visão melhor do que pareciam ser fogos de artifício espocando, brilhos de vermelho e prata na fumaça espessa. Os sons eram estranhos, disse Fares. Ele pediu para que ela se escondesse, disseram parentes mais tarde, e ela o fez, só que tarde demais. A última imagem que Karaan viu de sua noiva foi dela correndo enquanto procurava um local seguro. Veio, então, a grande explosão. 

Treinada como enfermeira, Fares decidiu, em 2018, entrar no serviço público. Filha de um soldador e uma professora que lutaram para sobreviver, ela ansiava pela estabilidade e os benefícios sociais de uma carreira no governo.

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Fares cresceu na aldeia de Al-Qaa, no norte do Líbano, na fronteira com a Síria. Em 2016, no auge da violência do Estado Islâmico em todo o Oriente Médio, os terroristas invadiram Al-Qaa, mataram cinco moradores e feriram outras dezenas.

Uma prima de Fares, acordada pelo ataque, correu para ajudar seus vizinhos e foi uma das vítimas. Então, ela foi para Beirute. Fares e seu noivo se orgulhavam de seus serviços ao país. Ele trabalha como oficial da Segurança do Estado, que fornece policiamento interno e proteção aos políticos do país.

'História de mártires e martírio'

Nos momentos em que o corpo de Fares foi colocado para descansar, os moradores de Al-Qaa fervilhavam de raiva e desespero. Eles haviam perdido muito, eles disseram, dedicando muitos de seus habitantes para um país que mal estava funcionando.

"Nossa história é de mártires e martírio", disse o prefeito de Al-Qaa, Bachir Mattar. “Sahar é uma mensagem para os nossos jovens de que existem pessoas que se comprometem com a nação e perdem tudo. Eu gostaria que houvesse uma nação que valesse tanto sacrifício e compromisso. Eu gostaria que tivéssemos um Estado adequado. ”

A vila nomeou seu campo de esportes com o nome dela, "em reconhecimento ao mártir de todos os mártires".

“As pessoas estão fartas”, continuou Mattar. “Estamos orgulhosos do sacrifício dela, mas também estamos incomodados. Por quê? Para que foi tudo isso? Pois um sistema disfuncional não sabe como resolver um único problema.”

Nos meses anteriores à sua morte, Fares estava economizando para preparar sua casa para o casamento e comprar seu vestido de noiva. Mas, como outros cidadãos libaneses, ela viu suas economias evaporarem da noite para o dia quando a moeda caiu, perdendo 80% de seu valor este ano.

O governo libanês restringiu as retiradas bancárias, permitindo que os cidadãos sacassem apenas algumas centenas de dólares por mês. A hiperinflação rapidamente consumiu o pouco dinheiro que ela tinha, tornando produtos cotidianos como mantimentos inacessíveis.

“Ela era a pessoa mais amorosa que conheço”, disse Theresa Khoury, de 23 anos, outra prima de Fares. “Gentil, atenciosa e sempre cuidando dos pais e irmãs. Ela estava cheia de vida e amava a vida. Seu sonho era casar com o amor de sua vida e passar o resto de sua vida com ele.”

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