AP Photo/Alastair Grant, File)
AP Photo/Alastair Grant, File)

‘Morte de Philip retoma a discussão sobre uma geração que está saindo do poder’; leia a entrevista

Para professora de relações internacionais Carolina Pavese, o impacto da morte do marido da rainha é mais simbólico e funções dele já eram divididas entre integrantes da família real

Entrevista com

Carolina Pavese, professora de relações internacionais da ESPM

Fernanda Simas , O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2021 | 15h24

A morte do príncipe Philip nesta sexta-feira, 9, levantou dúvidas sobre como ficará a estabilidade da família real em meio ao mais recente escândalo da entrevista do príncipe Harry e sua mulher, Meghan Markle, à apresentadora americana Oprah Winfrey e num momento de oscilação do apoio da população britânica à monarquia. 

Para a professora de relações internacionais da ESPM Carolina Pavese, o impacto é mais simbólico do que prático, já que a função de construir o apoio à monarquia com outros países já vinha sendo desempenhada por outros integrantes da família, como o príncipe Charles e o príncipe William. Além disso, segundo Pavese, a rainha Elizabeth II continua detendo o papel principal de sustentação da família. 

Qual é o principal impacto da morte do príncipe Philip para o equilíbrio da família real nesse momento?

Ele já estava fora de atuação há alguns anos, quando abdicou de tarefas públicas em 2017, e tinha a saúde mais debilitada, então ele já não estava sendo esse pilar da família nesses últimos anos. Ele não tinha a mesma lucidez da rainha nesses últimos anos. Continuou sendo uma figura respeitada na família para manter a união, mas as interferências diretas dele já eram poucas, pelo menos do que se sabe. Esse papel é muito desempenhado pela rainha, ela continua sendo o elo da família real com a monarquia britânica. Há um grande respeito da sociedade britânica pela figura da rainha por tudo que ela representa.

Philip tinha um papel importante de apoio à rainha. Como fica esse ponto? 

Essa é uma questão simbólica de gêneros. Uma mulher que assumiu o cargo mais importante dentre as monarquias que ainda existem ainda muito jovem e que vai ter o Philip como braço direito, mas que está atrás dela, literalmente. Quando ela assume o trono é solicitado que ele caminhe sempre atrás dela, o que causou um desconforto para ele na época. Mas é simbólico, para mostrar que quem está no comando é ela e para não ofuscar esse destaque enquanto mulher no poder e imagine isso nos anos 40.

Se ele estivesse ao lado dela, figurativamente falando, muito provavelmente iriam dizer que ele também estava na liderança máxima. E isso é interessante, a história da realeza britânica é marcada pela presença de mulheres muito fortes. A rainha ainda é uma figura de capacidade diplomática boa, uma interlocutora boa, carismática, é bem vista pela sociedade britânica. A morte do Philip retoma a discussão sobre uma geração que está saindo do poder e como será a monarquia na próxima geração e quais desafios vai enfrentar. Em breve, vamos ver o príncipe Charles como figura máxima dessa monarquia e ele não dispõe do mesmo carisma, do mesmo apoio popular.

Essa questão justifica o fato de Philip nunca ter tido o título de rei?

Sim, ele sempre foi o consorte. Ele nunca iria substituir a rainha, nem se ela morresse antes. Ele tinha o papel de marido que vem atrás da mulher na função pública. No núcleo familiar era uma relação mais tradicional. O suplente é o sangue. Ele era o 'outsider'.

E é possível medir o impacto de sua morte nesse núcleo?

Acho que não. É o impacto de se perder o patriarca, mas ele já tinha a saúde muito debilitada, então a participação dele mesmo no eixo familiar era mais pontual, restrita e simbólica nesse final. No começo foi diferente, ele até foi uma pessoa que não tinha muitos freios morais, falava tudo que pensava mesmo que fosse um escândalo. Para o eixo familiar é a perda de um patriarca importante, que mantinha a imagem de família grande.

Charles deve ter mais protagonismo agora?

O príncipe Philip cumpria todas as funções protocolares, de cerimonial, de relações públicas da coroa com a sociedade britânica e com outros países. Ele auxiliou muito a rainha em manter firme as relações internacionais. A legitimidade da família real é também encontrada em outros países, então eles precisam do reconhecimento externo para reforçar a importância de, no século 21, ainda termos uma monarquia em uma das principais democracias do mundo, das principais economias do mundo. O Charles também executa esse papel, por isso há tantas viagens. 

Esse papel de fortalecer a monarquia externamente passa a ser do Charles ou dividido entre integrantes da família real?

Tem sido dividido. Temos o Charles que assumia vários desses compromissos, o príncipe William também assumiu essa agenda e, pelo pouco tempo em que estiveram na realeza, o príncipe Harry e a Meghan também. Sempre que há uma viagem real há essa intenção por trás, de fortalecer os vínculos da Coroa com outros países. A escala de quem vai para esses compromissos é alternada. Agora, o Charles sempre foi visto como o filho e não o líder, sempre ficou em segundo plano e cumpriu esse papel de filho numa relação bem hierárquica. Vai ser interessante acompanhar como as pessoas vão se relacionar com uma pessoa que se colocou em segundo plano e agora começa a assumir protagonismo. Ele não é visto como uma figura forte o suficiente. 

E como fica a imagem do príncipe William nesse contexto?

William é mais popular. E aí você entra numa questão importante quando se fala da estabilidade da monarquia que é a geracional. A maioria da população britânica, mais ou menos 62%, é a favor da monarquia. Entre as pessoas com mais de 65 anos, esse número sobe para 85% e entre o grupo mais jovem, cai para 42%. Isso significa que as gerações que estão vindo são muito mais céticas sobre a monarquia, não é um apoio incondicional. Essa renovação exije que a Coroa se inove também. Há uma crise geracional e aí entra o papel importante de William e Kate, são jovens, são populares, e falam com essas novas gerações. Desde o casamento do William, ele vem sendo colocado mais à frente desses papéis, mais do que o pai. As pessoas acompanham a vida dele e dos filhos e o que garante parte desse apoio à família real é a sensação de pertencimento, de manter a identidade britânica.

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