Morte de Pinochet pode revelar papel da CIA em ditadura

Além de acirrar as tensões entre partidários da esquerda e da direita chilena, a morte do ex-ditador Augusto Pinochet deve ajudar a elucidar parte de um episódio ainda obscuro da história das ditaduras latino-americanas: o apoio dos Estados Unidos a golpes de Estado no continente.Colegas americanos do ex-embaixador chileno em Washington Orlando Letelier devem enviar uma carta ao procurador-geral dos Estados Unidos nesta quinta-feira, pedindo pela divulgação dos arquivos secretos sobre as relações do governo de Richard Nixon com o regime pinochetista. Letelier e seu ajudante americano Ronni Moffitt foram vítimas de um atentado à bomba atribuído a agentes ligados a Pinochet em 21 de setembro de 1976, em Washington. A explosão ocorreu a apenas três quilômetros da Casa Branca, e até hoje desperta inquietações sobre o apoio de Nixon, seu secretário de Estado Henry Kissinger e vários agentes da CIA à ditadura de Pinochet. Mesmo três décadas após a explosão, vários documentos permanecem classificados. Com a intenção de desvendar esse crime, membros do Instituto de Estudos Políticos de Washington - onde Letelier e Moffitt trabalhavam - pediram a abertura dos arquivos."Os documentos ligados ao caso Letelier podem definitivamente incluir informações sobre as relações do governo americano com a ditadura de Pinochet", diz Sarah Anderson, que é pesquisadora do instituto. "Mas isso não deveria impedir o direito do público em conhecer essa história, especialmente se ela ajudar consolar as famílias das vítima."Ainda assim, uma série de investigações conduzidas pelo Congresso, relatórios da CIA e documentos desclassificados já revelaram muito dessa trama. Eles indicam que funcionários dos Estados Unidos não participaram diretamente do golpe militar que derrubou o presidente marxista democraticamente eleito Salvador Allende, em 11 de setembro de 1973. Mas a CIA admite que teria ajudado a organizar tentativas anteriores sob ordens diretas de Nixon e Kissinger.Um relatório divulgado pela CIA em 2000 dizia que a agência "sabia de conspirações pelos militares, possuía relações de inteligência com alguns conspiradores e provavelmente iria apoiar" um eventual golpe. Ordens de KissingerEm 1970, uma ligação secreta do ex-vice-diretor de planos da CIA Thomas Karamessines transmitia ordens de Kissinger para o diretor da agência em Santiago, Henry Hecksher: "A substituição de Allende por um golpe de Estado é uma política firme" e a "mão dos Estados Unidos" precisa ser escondida.Ainda assim, para o analista senior do Arquivo Nacional de Segurança da Universidade Washington, Peter Kornbluh, alguns dos mais importantes documentos sobre o Chile permanecem secretos. Segundo ele, uma abertura total dos arquivos ajudaria a mostrar como os Estados Unidos participaram da consolidação do regime de Pinochet, mesmo sabendo dos abusos humanitários.Em Santiago, Juan Pablo Letelier, filho do embaixador assassinado, classificou a morte de seu pai e de outras milhares de vítimas do regime como a guerra suja de Pinochet."Pinochet morreu como um homem velho, aos 91 anos, cercado por seus familiares, seus filhos e atendido pelos melhores médicos", disse ele. "As pernas do meu pai foram arrancadas por uma bomba e ele sangrou até a morte na rua das embaixadas, em Washington. Outros foram torturados e atirados no oceano. Isso te faz pensar."

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