Morte de promotor amplia crise do kirchnerismo para eleição de outubro

A morte do promotor Alberto Nisman, responsável pelas investigações do atentado contra a Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia), em 1994, encontrado morto em seu apartamento na semana passada, deu novos contornos a um ano que prometia ser de alta tensão, já que os argentinos irão às urnas em outubro para definir o novo presidente da República e renovar o Parlamento.

Ariel Palacios, correspondete/Buenos Aires, O Estado de S.Paulo

25 de janeiro de 2015 | 02h01

Pesquisa de opinião divulgada na semana passada pela consultoria Management & Fit indicou que 84% dos argentinos acreditam que o caso afetará a imagem da presidente Cristina Kirchner, que tenta fazer seu sucessor na liderança do país.

Segundo a consultoria Ipsos, 70% dos entrevistados não acreditavam na versão na qual o governo insistiu até a quinta-feira sobre um suicídio e afirmavam que Nisman havia sido morto. Para 82% dos entrevistados, as denúncias que o promotor fez antes de morrer sobre Cristina são verossímeis.

Além disso, 63,9% consideram que a morte de Nisman será um caso que permanecerá sem solução, como outros crimes políticos das últimas décadas no país.

A escritora e jornalista Silvia Mercado, historiadora e autora de O inventor do Peronismo - obra que relata a vida de Raúl Apold, o propagandista do presidente Juan Domingo Perón - declarou ao Estado que a morte de Nisman piora drasticamente a situação do governo perante o panorama eleitoral.

"Na quinta-feira, quando o Conselho do Partido Peronista preparou um comunicado de respaldo à presidente Cristina, nenhum governador quis ler o texto", disse. "A missão ficou a cargo de uma figura menor dentro do partido. Ninguém queria se comprometer a defender Cristina explicitamente nesse caso tão chocante."

Cristina, que pela Constituição não pode se candidatar a um terceiro mandato consecutivo, é alvo de diversas investigações sobre desvios de fundos e lavagem de dinheiro em parceria com empresários e donos de empreiteiras. A presidente acumula três anos de constantes problemas de saúde que a mantiveram de licença médica durante boa parte do mandato.

Sem ter definido um candidato próprio à sucessão, Cristina começa 2015 no pior momento de seu governo, com uma popularidade que, antes de morte de Nisman, estava abaixo de 30%.

Para complicar, o país está em recessão, a inflação continua aumentando, enquanto as demissões multiplicam-se, causando um rápido afastamento dos sindicatos, outrora seus aliados incondicionais.

Mistério. No domingo passado, Nisman apareceu morto em seu apartamento, com um tiro na cabeça, disparado pela arma que estava ao lado de seu corpo.

Nas horas anteriores, ele havia preparado os documentos que apresentaria na segunda-feira perante uma comissão no Parlamento, onde daria mais detalhes sobre sua denúncia sobre a presidente, o chanceler Héctor Timerman, o líder piqueteiro kirchnerista Luis D'Elia e o deputado Andrés Larroque, chefe de La Cámpora, denominação da juventude kirchnerista, liderada pelo filho da presidente, Máximo Kirchner.

Ao longo da semana, a presidente voltou atrás sobre a tese inicial do crime, que apontava para um suicídio, depois das investigações avançarem. A perícia indicou que ele não tinha pólvora nas mãos e, segundo informações extraoficiais, o disparo teria sido feito a uma distância de 15 ou 20 centímetros da cabeça.

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