EFE/ALEXEY NIKOLSKY
EFE/ALEXEY NIKOLSKY

Morte do embaixador

Assassinato na Turquia não foi o suficiente para abalar plano de Putin para Síria

Gilles Lapouge, Correspondente / Paris, O Estado de S.Paulo

23 Dezembro 2016 | 05h00

Na segunda-feira, o representante russo na Turquia, Andrei Karlov, foi assassinado em Ancara por um turco. Apreensão geral. Os dois países, que há um ano vinham se desentendendo, de repente, estranhamente, se reaproximaram. Eles até se uniram para resolver (nas barbas dos ocidentais, essas nulidades impotentes...) o inextricável problema da cidade de Alepo, ameaçada de morte pelos ataques dos aviões russos e dos comandos iranianos.

Seria então possível que, nesse Oriente louco, dezenas de vezes destroçado e reerguido, o assassinato do embaixador pusesse abaixo o vertiginoso castelo de cartas levantado por Moscou para restabelecer a paz na Síria? 

Inquietações desnecessárias! Vladimir Putin não entrou nessa. Ele tem seus ataques de nervos e sensibilidade exacerbada, mas, quando o assunto é política, torna-se um monstro frio e calculista. Não vai derrubar um projeto, já complicado, só porque um embaixador russo (aliás, excelente) foi morto na Turquia por um fanático. 

Assim, como previsto, no dia seguinte ao assassinato o ministro russo de Relações Exteriores, Serguei Lavrov, recebeu em Moscou seus homólogos turco e iraniano. Os três acabavam de anunciar um sucesso com a tomada de Alepo dos rebeldes.

Era preciso malhar o ferro enquanto quente, aproveitar o estupor dos ocidentais – que assistiram ao avanço de Putin sobre a Síria incapazes de outra coisa senão balbuciar explicações. Resultado: a troica (Rússia, Turquia e Irã) vai agora buscar uma solução para a Síria. No acordo em negociação entre o governo sírio e a oposição, ela será a garantia. 

O projeto é ambicioso. Deve levar o cessar-fogo a todo o território sírio. É também quimérico, pois a Síria, após cinco anos de selvageria, não sabe fazer outra coisa senão atirar. É verdade que a troica admitiu que o cessar-fogo geral poderá abrir algumas exceções nas zonas dominadas por jihadistas, do Estado Islâmico e da Frente Al-Nusra. 

Portanto, entre a Rússia e a Turquia, que há um ano se detestavam, não existem dissensões graves. E, no caso de algum desacordo, a Rússia fala e os outros escutam. Por exemplo, quanto ao destino de Bashar Assad, o presidente sírio, que não hesitou em tratar seu país a fogo e sangue para se manter no poder. Se Moscou apoia Assad, a Turquia não o tolera.

De fato, na reunião de Moscou, o chanceler turco, Mevlut Cavusoglu, tentou abordar a questão, mas Lavrov, cortou de modo imperial: “Na Síria, a prioridade não é a mudança de regime, mas a luta contra o terror”. 

Pode-se então concluir que Putin decidiu salvar Assad? Certamente, não. A troica, sob influência de Putin, baixou esta regra: “Não existe solução militar para a Síria”. Acontece que Assad sempre defendeu o contrário. Ainda há poucos dias, repetiu a ladainha: sua meta é reconquistar militarmente a totalidade da Síria. Por aí se vê que os protetores de Assad ignoram os desejos e projetos do protegido. 

Pode-se tirar duas lições da reunião de Moscou. A primeira é que o assassinato de um embaixador russo num país amigo como a Turquia não basta para alterar a linha política do Kremlin; a segunda diz respeito a Assad. Por enquanto, a troica não pretende desestabilizá-lo – desde que obedeça.

Se é verdade que obteve em Alepo seu primeiro sucesso em cinco anos de guerra, não pode se esquecer de que essa vitória na verdade é dos aviões russos e das milícias xiitas do Irã.

Assad é a partir de agora uma marionete em mãos dos três padrinhos. Embora a reunião de Moscou o tenha salvado, isso constitui para ele uma violenta e humilhante afronta. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

 

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