REUTERS/Anibal Solimano/File Photo
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Morte do líder do Sendero Luminoso dá a Castillo chance de condenar esquerda violenta

Castillo aproveitou imediatamente a oportunidade para, pelo Twitter, condenar enfaticamente o Sendero Luminoso e Guzmán

Andrea Moncada / Americas Quarterly, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2021 | 16h00

LIMA – A vitória do presidente do Peru, Pedro Castillo, empossado há pouco mais de um mês, foi qualificada como uma grande mudança na política peruana. Pela primeira vez na história do país, um membro de um partido marxista-leninista foi eleito democraticamente para a presidência. Não é um feito menor, considerando que grande parte do papel da esquerda na história recente do Peru foi marcada pela violência e o trauma resultantes da atividade de uma organização terrorista maoista, o Sendero Luminoso, nos anos 1980 e 1990. O tema do terrorismo nunca deixou de ser um tópico sensível e gerador de discórdia no Peru. A direita, particularmente, usou a dolorosa memória do Sendero Luminoso e sua ideologia extremista para deslegitimar qualquer política proposta por partidos esquerdistas, incluindo as moderadas, ao longo dos trinta anos passados.

Essa angustiante história explica por que causou tamanho choque a associação do governo de Castillo com o MOVADEF, uma organização política criada em 2009 com o propósito de buscar anistia para ex-membros do Sendero Luminoso (incluindo seu líder, Abimael Guzmán) e registrar a organização como um partido político. Durante a campanha presidencial, a imprensa noticiou que Castillo era próximo a indivíduos ligados ao MOVADEF por meio do sindicato de professores que lidera, a FENATEP. Castillo aumentou as suspeitas ao nomear primeiro-ministro Guido Bellido, que no passado expressou simpatia em relação ao Sendero Luminoso. Iber Maraví, ministro do Trabalho de Castillo, também foi identificado por ex-terroristas como participante das atividades do grupo durante sua juventude, de acordo com registros policiais. Maraví declarou que essas acusações são falsas. O presidente não fez nenhum tipo de gesto para indicar seu repúdio a esses indivíduos, nem removeu os ministros de seus cargos, apesar de clamores para que o fizesse.

Conforme esperado, a direita e a centro direita se agarraram a esses desdobramentos para argumentar que Pedro Castillo representa um perigo para a democracia peruana e que ele pode ser simpatizante do Sendero Luminoso. Ainda que Castillo negue as acusações, seu comportamento certamente aumentou a fragilidade de uma presidência já enfraquecida, assombrada pela possibilidade de um processo de impeachment em um Congresso controlado pela oposição.

A súbita morte de Abimael Guzmán, no último sábado, contudo, ocasiona uma reviravolta que provavelmente favorecerá Castillo. O líder de 86 anos de uma das mais sanguinárias insurgências latino-americanas, conhecido por seus fanáticos seguidores como “Presidente Gonzalo”, morreu depois de passar quase 30 anos encarcerado, após sua captura em 1992. Castillo aproveitou imediatamente a oportunidade para, pelo Twitter, condenar enfaticamente o Sendero Luminoso e Guzmán, qualificando-o como “responsável pela perda de inúmeras vidas de nossos compatriotas”, e insistindo que, “Nossa postura de condenação ao terrorismo é firme”. O ministro da Economia de Castillo, Pedro Francke, acrescentou, “Não nos esqueceremos do horror daquela era, e a morte [de Guzmán] não apagará seus crimes”.

Como resultado de sua estrutura extremamente hierarquizada, o Sendero Luminoso desmoronou depois da prisão de Guzmán. Alguns remanescentes se voltaram ao tráfico de drogas em partes da Amazônia peruana. Outros, como o MOVADEF, escolheram continuar seguindo o “Pensamento Gonzalo” — a interpretação de Guzmán do marxismo — e buscaram por vias legais anistia para membros do Sendero Luminoso e sua participação no processo político. Guzmán podia estar preso, mas continuava uma figura importante, embora repulsiva, na política peruana. Ser associado a ele ou seu Sendero Luminoso em qualquer nível era uma mancha indelével que somente aqueles posicionados nos limites mais longínquos da extrema esquerda ousavam aceitar abertamente.

Sua morte poderia mudar o ambiente em torno do legado do Sendero Luminoso de duas maneiras principais. Primeiramente, privando o MOVADEF de seu maior objetivo: a anistia e a libertação de Guzmán. Outros membros da cúpula do Sendero Luminoso, como a mulher de Guzmán e segunda no comando da organização, Elena Iparraguirre, continuam na prisão — mas Guzmán era a figura central e inconteste dos militantes maoistas. E em segundo lugar, parece que uma parte significativa da população está cansada das acusações de terrorismo (terruqueo) que a direita distribuiu com tanta frequência nas últimas décadas e deseja deixar para trás o capítulo mais sangrento da história peruana.

Por exemplo, de acordo com uma pesquisa realizada pelo instituto Ipsos, pouco antes da morte de Guzmán, 33% dos entrevistados afirmaram que comentários passados e fotos nas redes sociais de Bellido não refletem sua simpatia pelo Sendero Luminoso. Na verdade, o índice de aprovação de Bellido, mesmo que ainda baixo, aumentou levemente, de 21% para 25%, e 28% consideram que ele deveria continuar primeiro-ministro. Entre os entrevistados, 30% acreditam que as acusações de que Iber Maraví integrava o grupo terrorista são parte de uma conspiração contra o governo. O índice de aprovação de  Castillo, enquanto isso, também aumentou levemente, de 38% para 42%.

Claramente, para a maioria dos peruanos, os elos de Castillo com o MOVADEF são inaceitáveis e motivam apreensão em relação ao seu governo. Mas as pesquisas também mostram que cerca de um terço da população não se importa com esses elos ou não acredita que sejam causa de preocupação, muito provavelmente em razão da desconfiança das pessoas em relação a uma direita e uma centro direita que não conseguiram oferecer uma alternativa política popular e a uma imprensa que, durante a campanha presidencial, se enviesou a favor da rival de Castillo, Keiko Fujimori. É possível que a morte de Guzmán afaste ainda mais o legado de violência do Sendero Luminoso da memória do povo peruano, assim como sua associação ao governo de Castillo. Desde o sábado, o presidente já condenou publicamente o grupo em comunicados e pronunciamentos.

E ainda assim, a presidência de Castillo não está fora de perigo. O presidente ainda enfrenta uma oposição à espreita da primeira oportunidade viável de retirá-lo do cargo, assim como lutas internas entre moderados e radicais que ameaçam minar sua estabilidade. Contudo, passaram-se apenas seis semanas desde a posse de Castillo. Em um país repleto de reviravoltas cinematográficas, é difícil prever o que as próximas seis semanas trarão.

*É colunista colaboradora da Americas Quarterly, é jornalista e analista política com base em Lima. Siga ela pelo perfil @AMoncada_C

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