Morte e horror - o que as crianças vão herdar

Um balanço depois de 14 meses da segunda ?intifada?: mais de mil mortos, dos quais 800 palestinos e 200 israelenses, sem que essas torrentes de sangue tenham feito avançar sequer um milímetro as negociações de paz. Ao contrário, elas as fizeram recuar. Esses mil cadáveres nutriram e engordaram a guerra. O inconveniente dessas estatísticas é que elas ?desrealizam? a morte de cada um dos mil corpos. A estatística é abstrata. As mortes que elas contabilizam ficam, elas também, reduzidas a uma abstração. E isso é tanto mais verdade quanto os lugares onde acontecem as mortes são mais diversos e as vítimas mais numerosas: em Nova York, falou-se de início em 6 mil mortes. Agora, depois da recontagem, a cifra foi refeita para cerca de 4 mil. Para cada um de nós, o fato de os mortos das Torres Gêmeas serem 4 mil em vez de 6 mil muda alguma coisa? Não, obviamente. Não são indivíduos que morreram. É uma cifra. Mais ainda porque nossa mente é requisitada, ao mesmo tempo, a contabilizar também os mil mortos do Oriente Médio, os 400 ou 500 mortos da ?carnificina? de Qala-i-Janghi , perto de Mazar-i-Charif, no Afeganistão, e outros pequenos feixes de mortos aqui e ali, no País Basco, nas Filipinas, etc. Diante dessas litanias fúnebres, nosso espírito e nossos corações se cansam de representar a morte. Ela não é mais que uma palavra e uma cifra. Nossos corações não reagem mais. A ?corrente? é muito forte e produziu uma espécie de ?curto-circuito? do pesar. Estranhamente, para que uma morte nos comova é preciso que a vítima seja solitária. Por exemplo, a morte de dois jornalistas. É como se eles, mortos solitários, tivessem o poder de destacar seus cadáveres do vasto ossário de nosso início de século. Outra categoria de cadáveres nos traz lágrimas: a das crianças. É um dos traços mais nauseabundos das guerras do século XX (e já do XIX) que as crianças sejam vitimadas maciçamente e se tornem instrumentos das besteiras cometidas pelos adultos. É uma característica universal: nos genocídios de Ruanda, entre as vítimas dos franco-atiradores da Bósnia, nas famílias degoladas na Argélia pelos ?fundamentalistas? loucos, a dizimação das crianças, moças e rapazes parece constituir uma espécie de ?must? para os assassinos. É verdade que, para os ?matadores?, a morte de crianças não é inútil. Funciona como catalisadora do ódio. No Oriente Médio, dia 1º de outubro, um pequeno palestino, Mohammed Al-Nouara , 10 anos talvez, foi morto na encruzilhada de Netzarin, perto de Gaza. Sua agonia foi filmada e apresentada pela TV. E a carreira de ?astro fúnebre? do pequeno mártir começa: na Palestina, as camisetas com sua imagem se erguem como estandartes. Outro menino, mas israelense desta vez, entra pouco depois nesse concurso da morte pueril: é um bebê abatido pelos terroristas. E esses dois corpos de crianças, inimigas e misteriosamente reconciliadas sob a terra, torna-se o combustível graças ao qual queima um pouco mais alto o grande fogo de artifício do nada. Não é só no Oriente Médio que as crianças são ao mesmo tempo massacradas e recrutadas pela propaganda da morte: o fenômeno vem desde o Vietnã. Lembremos aquela foto mostrando uma menina em chamas correndo pela estrada. O horror. No Camboja, sob Pol Pot, ?tanto fazia? : na imensa colheita de crânios e fêmures feita pelo chefe do Khmer Vermelho, os ossos das crianças eram tão cobiçados quanto aqueles dos adultos ou idosos. Pol Pot não fazia diferença: bebê, criança, adulto, homem, mulher, tudo estava bem, contanto que ele colecionasse mais um crânio (foram 3 milhões de crânios, no total...). E as crianças continuam a morrer, mesmo depois que as guerras terminam. Forçosamente a criança é distraída, sempre quer brincar, correr para todo canto e saltar freqüentemente sobre as minas com as quais os soldados infestam o solo. Por toda parte, nosso século fabricará pequenos mutilados. Mas ainda há um outro horizonte intransponível de horror: os países recrutam as crianças em seus combates. Sabe-se que na guerra Irã-Iraque regimentos inteiros formados por garotos se lançavam no assalto às linhas adversárias, saltavam sobre minas, se deixavam abater pelos atiradores, e só depois disso os adultos podiam atacar (da mesma maneira que, em 1914-18, os alemães, como os franceses, enviavam porcos para receber as primeiras salvas, permitindo que os soldados atacassem depois). O mais triste é que as crianças se encantam com isso. Se lhes dão uma metralhadora, tornam-se homens. Podem matar, podem morrer, que maravilha! Elas são ferozes. Mostram seus dorsos ensangüentados. São ?deuses?. Elas podem atirar-se vigorosamente na cota de maus instintos que cada um de nós recebe ao nascer e que a educação, a cultura, se empenham justamente em domesticar. Mas, hoje, ?deu a louca? no mundo. Os adultos, agora, se esmeram em atiçar o gosto da morte, o gosto do mal. Dane-se a candura. Uma parte dessas crianças não morrerá. Algumas serão mutiladas pelo resto da vida. Outras sobreviverão intactas, se casarão, terão outras crianças. Mas quantos conflitos nos subterrâneos de suas consciências! Que abismos purulentos dentro delas, escavados durante esses anos pálidos, durante os quais elas distribuíram morte, ?como gente grande?, numa idade em que deviam estar empinando pipas. É esse o truque mais fétido do demônio: matar as crianças, ou, por outra, matar a inocência das crianças. Leia o especial

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.