Mark Felix / AFP
Mark Felix / AFP

Morte, incerteza e isolamento criam uma crise de saúde mental nos EUA

Especialistas dizem que clínicas e hospitais, já sobrecarregados pela covid-19, são incapazes de lidar com aumento de casos de ansiedade, depressão e abuso de drogas, que costumam acompanhar períodos de pandemia e de estagnação econômica

William Wan / The Washington Post, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2020 | 05h00

Após três meses de pandemia, os EUA estão à beira de outra crise de saúde. O número crescente de mortes, o isolamento, o medo e a incerteza causados pela devastação econômica vêm criando um trauma psicológico generalizado. Agências e especialistas alertam para uma onda histórica de distúrbios mentais, incluindo aumento de casos de depressão, abuso de drogas e álcool, estresse e suicídios.

Assim como o surto de coronavírus pegou clínicas e hospitais despreparados, o sistema de saúde mental dos EUA está ainda menos preparado para lidar com um aumento de distúrbios mentais. “Isso me faz perder o sono”, disse Susan Borja, que lidera o programa de pesquisa sobre estresse do Instituto Nacional de Saúde Mental. “Eu me preocupo com as pessoas que o sistema não absorverá, com o sofrimento que não será tratado em escala tão grande.”

Dados mostram que casos de depressão e ansiedade já estão crescendo. Quase metade dos americanos relata que a crise afetou sua saúde mental, segundo pesquisa da Kaiser Family Foundation. Uma linha direta de emergência para pessoas com distúrbios emocionais registrou um aumento de mais de 1.000% em abril, em comparação com o mesmo período do ano passado. 

A Talkspace, empresa de terapia online, registrou um aumento de 65% de clientes desde fevereiro. Mensagens de texto e transcrições de sessões de análise demonstram a ansiedade dos pacientes. “As pessoas estão com medo”, disse Oren Frank, CEO da Talkspace. “A crescente demanda por serviços segue quase exatamente a marcha geográfica do vírus nos EUA. É chocante que ninguém fale sobre isso.” 

Pesquisadores criaram modelos com base em dados coletados após desastres naturais, ataques terroristas e crises econômicas que mostram um provável aumento de suicídios, mortes por overdose e transtornos por abuso de outras substâncias. No entanto, dos trilhões de dólares aprovados pelo Congresso apenas uma pequena parte é destinada à saúde mental. 

“Se não fizermos algo a respeito agora, as pessoas sofrerão nos próximos anos”, disse Paul Gionfriddo, presidente do grupo Mental Health America. “Isso pode prejudicar ainda mais a economia, pois o estresse e a ansiedade debilitam alguns trabalhadores e sobrecarregam mais o sistema de saúde, porque as pessoas precisam de atendimento para ataques de pânico, overdoses e depressão.”

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Especialistas alertam que os EUA precisam se precaver contra uma onda de problemas psicológicos, que costuma acompanhar as pandemias por semanas, meses e até anos, principalmente em razão da devastação econômica. 

Há alguns anos, pesquisadores estabeleceram uma correlação entre crises econômicas e índice de suicídio e de abuso de drogas. Um estudo iniciado em 2007, durante a crise financeira global, mostrou que para cada aumento porcentual na taxa de desemprego havia um acréscimo de 1,6% na taxa de suicídio.

Usando essas estimativas, o Instituto Meadows criou modelos que sugerem que, se o desemprego subir 5 pontos porcentuais, um nível semelhante à última recessão, 4,8 mil pessoas a mais podem morrer por overdose e 4 mil a mais podem cometer suicídio nos EUA. Mas, se o desemprego subir 20 pontos porcentuais, no nível da Crise de 1929, seriam 22 mil casos a mais de overdose e 18 mil de suicídios. 

Grupos de prevenção, no entanto, preferem não discutir projeções como as do Instituto Meadows. Eles afirmam que relatar os casos pode aumentar as tentativas de suicídio, um efeito conhecido como “contágio”. “Os números podem subir? Sim, mas isso não é inevitável. O suicídio é evitável”, disse Christine Moutier, diretora da Fundação Americana para a Prevenção do Suicídio.

O fenômeno não se restringe aos EUA. Um estudo com um grupo de 1.257 médicos e enfermeiros na China, durante o pico da pandemia, descobriu que metade relatou depressão, 45%, ansiedade e 34%, insônia. “Atingimos um período de incerteza em que muitas pessoas se perguntam quanto tempo podem suportar”, disse Liselotte Dyrbye, médica da Mayo Clinic, especialista em síndrome de burnout. “O bule não pode ferver por tanto tempo.”

Ananya Cleetus, de 23 anos, moradora de Pittsburgh, é um reflexo da crise. Com transtorno bipolar, ela conta que estava cada vez mais difícil sair da cama. “Levei semanas e para perceber que não era só comigo”, disse. Desde então, ela criou uma rotina diária e um guia online para ajudar pessoas com distúrbios na pandemia. “O vírus mexe com todo mundo. Ansiedade, isolamento, incerteza, todos lutam contra isso, de uma maneira ou de outra.” 

 

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