Ahmad GHARABLI / AFP
Ahmad GHARABLI / AFP

Morte na Terra Santa: coronavírus muda rituais de luto para judeus e muçulmanos

Funerais e rituais de luto mudaram desde que as autoridades israelenses e palestinas impuseram novas diretrizes

Reuters, O Estado de S.Paulo

02 de abril de 2020 | 11h59

JERUSALÉM - Um aumento no número de mortos devido à crise de coronavírus está forçando uma mudança nas tradições de luto e enterro de judeus e muçulmanos na Terra Santa.

Em Israel, os judeus mortos normalmente são sepultados vestindo uma espécie de mortalha de pano, sem um caixão. Agora, os corpos das vítimas de coronavírus são levados para o ritual de limpeza - realizado com equipamentos de proteção completa - envoltos em plástico impermeável. 

E são cobertos por plástico mais uma vez antes do sepultamento. "Os sentimentos são muito contraditórios", disse Yakov Kurtz, que trabalha para Chevra Kadisha, o principal comitê fúnebre que supervisiona os enterros judeus em Israel. "Não sabemos o que esperar, não sabemos quantos mortos teremos que cuidar. Há muitos temores."

Novos decretos para lidar com os mortos por coronavírus foram proferidos para enterros muçulmanos, disse o xeque Muhammad Hussein, grão-mufti de Jerusalém e territórios palestinos. "Esta é uma regra de necessidade e as necessidades permitem proibições; portanto, o falecido não é lavado, nem envolto por mortalha, e é enterrado em um saco para cadáver", disse Hussein.

Israel registrou 29 mortes por coronavírus até agora. Os palestinos confirmaram uma morte até o momento. Funerais e rituais de luto mudaram para todos desde que as autoridades israelenses e palestinas impuseram diretrizes para que todos ficassem em casa e restringiram o tamanho das reuniões públicas para tentar impedir a propagação do vírus.

Os funerais em Israel têm participação limitada a no máximo 20 pessoas e apenas se for realizado em espaço aberto. E as regras de distanciamento social proíbem os abraços entre os presentes. Isso afetou a tradição judaica de Shivá - um período de sete dias que começa após o enterro, no qual as pessoas vão à casa da família para oferecer condolências, trazer comida e relembrar os que partiram.

Em Gaza e no território ocupado da Cisjordânia, famílias enlutadas passaram a aceitar condolências pelas mídias sociais. Ihab Nasseraldin perdeu seu irmão para o câncer na semana passada. Seu corpo foi levado do hospital para o cemitério, e a família não pôde realizar o ritual planejado na mesquita de Jerusalém al-Aqsa.

“Nós o enterramos e recebemos as condolências no local do sepultamento. Já tínhamos pedido a todos que não apertassem as mãos, ou dessem abraços ou beijos, o que é costume aqui. Isso foi desconfortável”, disse Ihab. Poucos foram capazes de comparecer ao funeral. Amigos e parentes foram instruídos a não visitar a casa da família durante o período habitual de três dias de luto.

"Sinto-me realmente triste por não termos podido rezar em al-Aqsa pelo corpo", disse Ihab. “Mas não há nada que possamos fazer. Que Deus aceite isso de nós." / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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