Issei Kato/Reuters
Issei Kato/Reuters

Mortes caíram no Japão no ano passado. Como?

Declínio sugere que métodos de combate ao coronavírus também foram eficazes para a redução de outras doenças

Ben Dooley e Hikari Hida, The New York Times

25 de fevereiro de 2021 | 07h00

TÓQUIO - As mortes no Japão caíram no ano passado pela primeira vez em mais de uma década, um dado surpreendente em meio à pandemia de coronavírusOs dados sinalizam que as medidas de combate ao vírus adotadas pelo país surtiram efeitos positivos que extrapolaram seus objetivos iniciais.

O ministério da Saúde japonês reportou esta semana que as mortes no país caíram para cerca de 1,4 milhão, 0,07% a menos do que o registrado no ano anterior. É uma reviravolta formidável para o país, que tem a população mais idosa do planeta.

Quando o coronavírus começou a se propagar no início do ano passado, muitas pessoas temiam que o Japão, por sua pirâmide etária, seria especialmente vulnerável. Mas o número de casos e mortes relacionados à doença foi menor do que nos Estados Unidos e na Europa Ocidental.

Na terça-feira, 23, o Japão havia registrado menos de 7.600 mortes causadas pelo vírus e a média de sete dias de novos casos permaneceu em torno de 1.200. Os números diários de infectados nunca excederam os oito mil.

Os Estados Unidos, pelo contrário, registraram mais de 500 mil mortes e 28 milhões de infecções. As mortes por outras causas que não a covid-19 também aumentaram, talvez porque as pessoas têm evitado ir a hospitais ou ambulatórios médicos.

A expectativa de vida dos americanos caiu em um ano nos primeiros seis meses de 2020, a maior queda desde a 2ª Guerra.

No caso do Japão, os dados mais recentes divulgados pelo governo não foram detalhados por categoria,  tornando difícil dizer com certeza o que causou a redução no número de mortes.

Mas estatísticas do início do ano sugerem que a queda foi provocada em grande parte por um drástico declínio de doenças respiratórias, um efeito colateral provável da adoção quase universal de máscaras e respeito, por parte dos japoneses, à recomendação de manter o distanciamento social.

Embora as máscaras já fossem usadas comumente no Japão, no ano passado elas se tornaram obrigatórias como medida de combate ao vírus.

O país também adotou outras medidas para evitar a propagação do coronavírus, incluindo a oferta de desinfetante de mão na entrada de todos os espaços comerciais e locais de trabalho. A orientação de se evitar espaços fechados, locais de aglomeração e contato próximo com outras pessoas tem sido respeitada por todos.

Um outro fator, embora menor, é o declínio de acidentes de trânsito, uma vez que menos pessoas foram para as estradas, especialmente porque o governo chegou a declarar por duas vezes estado de emergência no país. As mortes decorrentes de acidentes de tráfego caíram 12% em 2020, para 2.839, segundo dados da Agência Nacional de Polícia. Foi o menor número registrado desde que a agência começou esse monitoramento, em 1948.

O Japão não é o único a ver benefícios periféricos das medidas contra o vírus. As mortes na China também caíram ligeiramente nos primeiros três meses de 2020 fora da região epicentro da pandemia, Wuhan, segundo um estudo realizado pela universidade de Oxford e o Centro de Controle e Prevenção de Doenças da China.

Embora a queda no número de mortes no Japão seja um avanço positivo, houve alguns sinais ameaçadores. O país registrou um aumento nos casos de suicídio, em particular entre as mulheres, com pouco menos de 4% mais pessoas tirando a própria vida em 2020 em comparação com o ano anterior; com relação às mulheres o aumento foi de quase 15%.

Especialistas ligam o fenômeno às situações de estresse relacionadas à pandemia, como perda de emprego, o isolamento das pessoas refugiadas em casa e os maiores encargos domésticos a serem suportados.

A população do Japão também continua a contrair apesar da queda das mortes em geral. O país, cujo número de habitantes sofreu uma redução em 2007 com a queda no número de nascimentos e uma população cada vez maior de idosos, perdeu cerca de 511 mil pessoas em 2020, uma ligeira aceleração em relação ao ano anterior.

Mas o número de nascimentos caiu novamente no ano passado, sugerindo que a pandemia provavelmente deve acelerar a redução do número de habitantes do país. De acordo com projeções do governo, a população japonesa, constituída hoje de 126 milhões de habitantes, deverá diminuir para menos de 100 milhões em 2053 e 88 milhões em 2065. /Tradução de Terezinha Martino

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