Mortes em Haditha podem deixar EUA em apuros no Iraque

Em meio à escalada de violência no Iraque, o alegado massacre em novembro de 24 civis por fuzileiros navais americanos na cidade de Haditha, a noroeste de Bagdá, revela-se um desafio cada vez mais espinhoso para os EUA. Dois inquéritos formais estão em curso, mas as coisas não marcham bem para os "marines" supostamente envolvidos ou para a imagem dos EUA.Na edição desta terça-feira, o Wall Street Journal salienta que autoridades civis e militares familiarizados com o incidente admitem que "fotos, vídeos e outras evidências indicam que os fuzileiros navais mataram civis desarmados, inclusive mulheres e crianças, sem provocação".Mais do que isto, existe uma investigação sobre uma possível tentativa de acobertar o que aconteceu em Haditha. A idéia seria atribuir a responsabilidade a insurgentes sunitas na região.O chefe do Estado-Maior das Forcas Armadas dos EUA, general Peter Pace, disse ser "prematuro" julgar o que irá acontecer, mas os inquéritos devem ser finalizados em cerca de duas semanas e a visão comum é a de que vários fuzileiros "serão processados por homicídio, o que pelo código militar americano, poderá eventualmente acarretar na pena de morte".Influentes congressistas já avaliam o impacto político, mesmo sem a confirmação da atrocidade. O deputado democrata John Murtha (condecorado por bravura no Vietnã e que agora defende a retirada das tropas americanas do Iraque) adverte que o incidente em Haditha poderá manchar a imagem dos EUA no mundo árabe ainda mais profundamente do que o escândalo dos prisioneiros em Abu Ghraib. Já congressistas republicanos - muitos ansiosos para se distanciar do desgastado governo Bush - falam em uma comissão de inquérito para investigar como os militares lidaram com o alegado massacre em Haditha.O preço para o governo Bush não acaba por aí. Além do ardor investigativo da imprensa e das cobranças do Congresso sobre o incidente de novembro passado, o caso poderá perturbar as relações da Casa Branca com o novo e precário governo do primeiro-ministro Nouri al-Maliki.A esperança de Washington é de que Maliki se mostre capaz de reduzir as tensões e assim pavimentar o caminho para a retirada de tropas americanas. Mas a curto prazo deverá acontecer a ampliação do contingente americano e Maliki poderá usar o suposto massacre em Haditha para deixar claro sua independência em relação a Washington.Além de expressar indignação, existe a possibilidade de que o primeiro-ministro peça a extradição de qualquer fuzileiro naval implicado. Por acordo com o Iraque, pessoal militar americano acusado de irregularidades ou conduta criminosa só pode ser julgado pela Justiça militar dos EUA.Nada disso impedirá uma saraivada de acusações políticas contra os americanos, dentro e fora do Iraque.

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