Mortes levam governo argentino a propor diálogo

O governo argentino defendeu nesta segunda-feira o diálogo e a paz social como forma de superar a grave situação em Salta, a 1.600 km de Buenos Aires, onde neste domingo duas pessoas morreram baleadas e outras 36 ficaram feridas quando a Guarda Civil acabou com um bloqueio de estrada promovido por piqueteros - desempregados que protestavam contra a política econômica adotada no país, exigindo postos de trabalho e ajuda governamental. O ministro do Interior, Ramón Mestre, lançou um apelo "em favor da paz, para que os espíritos se tranqüilizem".Ele disse lamentar os incidentes de violência em Salta e enfatizou que "de modo algum podemos utilizar a violência em nenhuma de suas formas". Enquanto a Guarda Civil efetuava a prisão de 17 pessoas que tentaram na manhã desta segunda-feira bloquear novamente a Rodovia Nacional 34, na altura da localidade de General Mosconi (a 1.600 km de Buenos Aires), o juiz federal de Salta, Abel Cornejo, assegurava que ainda existem focos de franco-atiradores disparando contra as centenas de guardas que continuam a patrulhar a estrada. Ao mesmo tempo, em Buenos Aires, pouco depois do meio-dia desta segunda (hora local), cerca de 700 pessoas foram reprimidas pela polícia quando tentavam realizar uma manifestação de protesto diante da sede da Casa de Salta (uma espécie de embaixada da província) a apenas quatro quarteirões do palácio presidencial. Os manifestantes, convocados por partidos de esquerda para protestar contra as mortes ocorridas neste domingo, marcharam rumo à Praça de Maio e estavam diante da Casa Rosada (sede do governo) quando foram interceptados pela polícia portenha em meio às ruas semidesertas da capital durante o feriado nacional desta segunda. Embora o juiz federal Cornejo, falando a emissoras de rádio de Buenos Aires, tenha se referido à "capacidade de fogo" do grupo de franco-atiradores que tenta alvejar os cerca de 950 agentes das forças de segurança - que continuam postados na rodovia e usam gás lacrimogêneo para dispersar os manifestantes -, o governo federal negou nesta segunda que haja grupos guerrilheiros atuando no norte da Argentina, que teriam provocado os incidentes violentos da véspera. "Não creio que exista guerrilha como a que conhecemos, é totalmente diferente", declarou à imprensa o secretário nacional de Segurança Interior, Enrique Mathov. Mathov replicou a declarações anteriores do secretário de Segurança de Salta, Daniel Nallar - para quem grupos guerrilheiros estão atuando no norte da Argentina.Ao referir-se aos incidentes de domingo, Nallar disse que "estamos diante de guerrilhas", caracterizadas como "bandos delinqüentes que estão organizados e armados e têm a intenção de cometer delitos, embora careçam de uma ideologia comum". Embora discordando do secretário regional, Mathov admitiu que "voltamos a escutar este canto de sereia". O secretário federal acrescentou que "alguns começam a opinar que as injustiças econômicas são pretexto para se empunhar armas para resolver os problemas". Por sua vez, os dirigentes sindicais culparam as autoridades nacionais e provinciais pelos episódios violentos deste domingo. Hugo Moyano, secretário do setor "combativo" da dividida Confederação Geral do Trabalho (CGT), disse que "isto demonstra que este modelo econômico nos leva a uma situação desesperadora, com risco de (nos fazer) entrar em uma guerra civil".

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