AP Photo/Christian Bruna
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Mortes no Mediterrâneo aumentam em 34%

Sobreviventes contam que foram mantidos como escravos sexuais na Líbia antes de embarcar para a Europa

Jamil Chade, correspondente / Genebra, O Estado de S. Paulo

31 Maio 2016 | 07h56

GENEBRA - As mortes no mar Mediterrâneo aumentaram em 34% em comparação a 2015 e somam 2,4 mil vítimas apenas nos primeiros cinco meses do ano. Os dados foram publicados nesta terça-feira, 31, pela ONU e, se o ritmo de mortes continuar, 2016 deverá bater o recorde do ano anterior, quando um total de 3,7 mil pessoas morreram tentando cruzar o mar.  

A ONU indicou que reavaliou seus dados e que pelo menos 880 estrangeiros morreram até domingo, em apenas cinco dias. No fim de semana, a previsão era de 700 mortos. Na avaliação da entidade, o comportamento da União Europeia é "vergonhoso" ao demorar para implementar acordos para repartir os refugiados pelo continente e, assim, reduzir a pressão sobre Grécia e Itália. 

Em comparação aos números de 2015, a entidade insiste que o salto é "dramático". "Foram 2,5 mil mortes em 2016, contra 1,8 mil no mesmo período de 2015. O ano tem sido especialmente mortal", disse William Spindler, porta-voz do Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur). 

Segundo a Organização Internacional de Migrações (OIM), os locais de mortes, porém, mudou. Se em 2015 mais de 400 imigrantes e refugiados não sobreviveram à rota entre a Turquia e as ilhas gregas, agora sofrem no caminho entre Líbia e Itália. "A rota italiana é dramaticamente mais perigosa que a rota entre Grécia e Turquia", disse Spindler. Segundo a ONU, um a cada 23 estrangeiros morrem no caminho antes de chegar à Europa.

Uma das explicações de Spindler para o salto é a atitude dos grupos criminosos que usam as rotas. "Há uma tendência cada vez maior de maximizar os lucros antes do período do Ramadã", disse. Uma das novas práticas é o uso de dois barcos em cada viagem, um com motor e outro sendo puxado por cordas. 

Escravos. Joel Millman, porta-voz da OIM, relata que esses grupos criminosos têm sequestrado pessoas na Líbia e exigem que os parentes paguem para que eles sejam liberados. Sob controle das milícias, as mulheres são alvos de estupros por parte dos criminosos e algumas são mantidas como escravas sexuais. 

"Uma vez soltos, são obrigados a embarcar em barcos que não têm condições sequer de flutuar", disse. 

"Assim que os barcos saem ao mar, eles emitem um alerta para que sejam socorridos e é uma corrida contra o tempo para chegar antes das mortes", explicou Spindler.  

Para ele, a promessa da União Europeia de focar seu trabalho em acabar com os grupos criminosos "não vai funcionar se os imigrantes e refugiados não tiverem alternativas". "Hoje, não existem caminhos legais para aqueles mais vulneráveis", indicou.

Outro problema é o caos político que vive a Líbia, o que impede que a Europa ou mesmo a ONU possa ter um parceiro com quem dialogar.  

Para a ONU, 14 mil pessoas foram resgatadas pelo mar por barcos italianos. No total, o ano já registrou 204 mil entradas de estrangeiros entre janeiro e o final de maio na Europa. 

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