Jim Wilson/The New York Times
Jim Wilson/The New York Times

Mortes por overdose e crimes fazem prefeita de São Francisco declarar emergência na cidade

London Breed rompe com as convenções liberais que orientaram a cidade americana por décadas, declarando estado de emergência em uma região tomada por crimes

Redação, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2021 | 22h52

SÃO FRANCISCO - A prefeita de São Francisco (Califórnia), London Breed, rompeu nesta sexta-feira, 17, bruscamente com as convenções liberais que orientaram sua cidade por décadas, declarando estado de emergência em uma região tomada por crimes. O distrito do centro foi afetado por um grave aumento de overdoses por uso de drogas. 

O anúncio da prefeita foi feito poucos dias depois que ela enfatizou a necessidade de a polícia limpar o que ela descreveu como "ruas desagradáveis". Ela concedeu uma entrevista coletiva na prefeitura, a poucos passos de onde traficantes de drogas vendem abertamente fentanil e metanfetaminas. “Estamos em uma crise e precisamos responder de acordo. Muitas pessoas estão morrendo nesta cidade, muitas pessoas estão espalhadas por nossas ruas", declarou.

O bairro, o Tenderloin, tem sido o marco zero para o tráfico de drogas, mortes por overdose e falta de moradia por anos. Mas Breed disse em uma entrevista que ela chegou ao seu limite nas últimas semanas depois de se reunir com famílias com crianças que moram no bairro, muitas delas imigrantes latinos, árabes e chineses, que disseram se sentir constantemente ameaçados.

Suas ações e linguagem surpreendentemente contundente ao descrever as ruas de São Francisco foram uma mudança marcante no tom e na política em uma cidade cuja região central se divide entre acampamentos de sem-teto e o uso de drogas ao ar livre. Eleita como uma democrata liberal, ela falou esta semana sobre "um reinado de criminosos", lixo espalhado por bairros cheios de "fezes e urina" e furtos em lojas de luxo que ela chamou de eventos de pilhagem em massa.

O anúncio de um estado de emergência teve como alvo específico a crise de overdose de drogas na cidade: no ano passado, foram registradas duas vezes mais mortes por overdose de drogas do que por coronavírus. Mas o anúncio desta sexta-feira é parte de um esforço mais amplo e agressivo para reprimir o tráfico de drogas e melhorar as condições na cidade. Em termos práticos, Breed disse que a cidade não toleraria mais usuários de drogas ilícitas nas ruas - dando-lhes a escolha entre tratamento ou prisão.

No início desta semana, Breed reconheceu que muitos de seus constituintes progressistas iriam criticar seus esforços. "(Mas) Não podemos continuar fazendo a mesma coisa e esperando um resultado diferente." Ela disse que São Francisco é uma cidade compassiva, que se orgulha de ter uma segunda chance. “Mas não somos uma cidade onde vale tudo”, disse ela.

As condições em São Francisco têm alimentado nacionalmente a Fox News e outros veículos conservadores como sinais de desordem supostamente criada pelo governo liberal. Em São Francisco, os oponentes do promotor público Chesa Boudin tentaram alavancar uma percepção de desordem e incidentes de roubo de varejo para prejudicá-lo. Esta semana, Breed usou uma linguagem mais estridente do que até mesmo os críticos mais severos de sua administração.

Seu anúncio foi feito no momento em que prefeitos de todo o país estão lutando contra o aumento da violência armada, homicídios e mortes por overdose.

Breed detalhou uma lista de iniciativas destinadas a interromper as vendas nas ruas de produtos roubados, expandir os poderes de vigilância policial e pressionar as pessoas que usam drogas a buscarem tratamento. Breed disse que declarar o estado de emergência permitiria à cidade reduzir a burocracia e aumentar o financiamento para a polícia, que ela disse já ter prendido 23 “pessoas que mantinham o bairro como refém”.

Alguns que trabalham no Tenderloin disseram que ficaram animados com o anúncio da prefeita. A um quarteirão de um parquinho deserto, Hanh Huynh, de 33 anos, disse que o armazém vietnamita onde ela trabalha era frequentemente roubado e que ela havia se mudado recentemente porque estava preocupada em criar seu filho de 2 anos na área. 

Ali Baalouach, de 44 anos, disse que moradores de rua costumam roubar a comida que ele vendia na mercearia de seu pai. “Eu amo a prefeita”, disse ele. “Escute ela, siga as regras e faça o que tem de fazer.”

Críticas

Mas nem todos receberam bem a notícia da prefeita. Laura Thomas, diretora de Política de Redução de Danos da San Francisco AIDS Foundation, disse que Breed estava misturando soluções boas com soluções ruins. “Ela parece estar embalando coisas que sabemos serem eficazes com coisas que realmente são contraproducentes”, disse Thomas.

“É absolutamente claro para todos que vivem ou trabalham em Tenderloin que precisamos fazer mais”, disse ela, acrescentando que o aumento da criminalização e o tratamento forçado não funcionam. “Não temos serviços suficientes, não temos moradia suficiente, não temos camas de abrigo suficientes.”

Thomas disse que a cidade deveria investir sua energia na implementação de iniciativas existentes, como uma que expandiria os cuidados de saúde mental e no desenvolvimento de locais de injeção supervisionados, que reduzam as mortes por overdose. 

A prefeita também prometeu resolver os problemas de qualidade de vida consertando postes de luz quebrados e removendo lixo e dejetos humanos./THE NEW YORK TIMES e AFP 

 

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