Zach Gibson/The New York Times
Zach Gibson/The New York Times

Mortos em atentado eram figuras típicas da vida noturna de Paris

Ataques do Estado Islâmico atingiram bairros e locais da capital que reuniam público intelectual e cosmopolita

Andrei Netto, CORRESPONDENTE / PARIS, O Estado de S. Paulo

16 de novembro de 2015 | 23h58

Seus nomes são “franco-franceses”, como se diz no país. Eles se chamavam Guillaume, Mathieu, Thomas, Marie, Elodie, Romain, mas incluem descendentes de imigrantes como as irmãs Halima e Hodda Saadi, ou ainda Djamila e Lamia. Eram jovens e adultos entre 25 e 40 anos que ainda estavam construindo suas carreiras de músicos, artistas, arquitetos, jornalistas, publicitários, professores, estudantes, garçonetes.

Essas são as vítimas dos atentados de Paris em 13 de novembro: jovens intelectuais, de espírito cosmopolita e progressista, abertos à imigração, moradores de bairros tradicionalmente de esquerda e marcados pela mistura social.

Em suma, os 129 mortos nos sete ataques perpetrados por jihadistas do Estado Islâmico ilustram um estilo de vida: o do jovem parisiense típico – o “burguês-boêmio”, ou “bobo”, que simboliza a vida cultural, artística e intelectual da capital.

Se em janeiro, na primeira onda de atentados de 2015, os alvos do grupo terrorista haviam sido a liberdade de expressão e o secularismo do jornal satírico Charlie Hebdo, as forças da ordem e a comunidade judaica de Paris, em novembro, o perfil mudou. Trata-se de um atentado à figura do jovem residente da capital, uma cidade universitária com intensa vida acadêmica e, em especial, aos frequentadores e moradores da região do Canal Saint-Martin e seus arredores, bairros que favoritos dos apreciadores da cena musical e artística de Paris.

Ao longo dos últimos quatro dias, o Estado conversou com sobreviventes, com familiares e amigos de quem teve menos chance e morreu nos ataques. Uma dessas vítimas era o jornalista Guillaume Barreau Decherf, de 43 anos, pai de dois filhos e repórter da revista semanal Inrocks – uma publicação que é, em si, a síntese do público alternativo e jovem de Paris. Formado na Escola de Jornalismo ESJ, de Lille, no norte da França, ele havia passado por publicações como Rolling Stone e o jorna Libération, antes de desembarcar na revista de esquerda.

Um dos últimos textos que escreveu foi sobre o último disco lançado pela banda Eagles of Death Metal, o que levou Decherf a estar na casa de shows Bataclan na sexta-feira. “Guillaume era um apaixonado pelo jornalismo”, contou um de seus três irmãos, Aurélien Decherf.

Em Paris, não é difícil encontrar com quem teve relações com vítimas dos atentados. “É tão duro. No meu círculo de relações houve três mortos, dois amigos de amigas que eu conhecia, e a prima de um amigo”, diz Yann, um jornalista parisiense, que resumiu seu estado de espírito em uma frase muito repetida por jovens da capital: “Éramos nós nas ruas na sexta-feira”.

Leonardo Tonus, brasileiro e professor de literatura na Sorbonne, é outra testemunha do horror. “É com tristeza que soubemos nesta manhã do desaparecimento de vários estudantes e colegas professores de universidades de Ile-de-France”, informou ele em sua página de Facebook, citando os nomes de três estudantes: Suzon Garrigues, Marion Lieffrieg-Petard, Kheireddine Sahbi.

Para outro brasileiro, o professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP José Lira, ele próprio um sobrevivente do atentado ao restaurante Le Petit Cambodge, o alvo foi o modo de vida, a cultura parisiense. “O que Me chamou muita atenção foram os lugares de lazer e de cultura que eles atacaram. Foi um clube de música e rock, uma casa de espetáculos, restaurantes, barzinhos de gente jovem”, disse Lira. “Não foi a imprensa como da outra vez. Foram lugares comuns, cotidia

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