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Moscou usa sua arma: o gás

Na batalha da Ucrânia, Moscou lança mão de suas "armas pesadas". São as torneiras que comandam a abertura ou o fechamento dos gasodutos pelos quais o gás russo (da Gazprom) chega até a Ucrânia. A Ucrânia consome a maior parte desse gás. Outra parte (ontem, considerável; hoje, menos expressiva) segue sua viagem e abastece a Europa porque a Gazprom atende a 30% das necessidades do consumo europeu.

GILLES LAPOUGE, O Estado de S.Paulo

12 de abril de 2014 | 02h06

O presidente russo, Vladimir Putin, que é o "senhor da guerra", dispõe de uma arma simples e cruel: se a Ucrânia não se comportar como deve, ele apertará um pouco o seu pescoço, suspendendo o fornecimento da Gazprom.

O Kremlin já fechou as torneiras em duas ocasiões, em 2006 e em 2009. A Ucrânia quase se sufocou, e, por tabela, a Europa também, porque, na época, 70% do gás destinado à Europa passavam pela Ucrânia.

Hoje, graças à construção de outro oleoduto, o Nord Stream, que passa por baixo do Mar Báltico, esse volume está reduzido a 15% - o que não impede que a totalidade do gás russo vendido a Turquia, Grécia e Bulgária continue transitando pela Ucrânia.

Para Putin, tudo isso veio perfeitamente a calhar: a Ucrânia desafiou a Rússia escolhendo a Europa e a democracia no fim das revoltas da Praça Maidan (da Independência). Putin espumou de raiva e, em represália, apoderou-se de uma parte da Ucrânia, a Crimeia. Bom trabalho, Putin! Mas não se deu por satisfeito.

Agora, ele quer agarrar a Ucrânia, como uma presa palpitante sangrando por todas as suas artérias, a fim de anexá-la, de uma maneira ou de outra, ao império russo. Na realidade, falida há anos, e mais ainda há três meses, a Ucrânia agoniza. O jogo beneficia Putin. Agora, poderá aumentar consideravelmente o preço do gás. Se Kiev não pagar, ele simplesmente deixará de fornecê-lo.

E há mais: há quatro anos, a Ucrânia, que tinha um governo pró-Rússia, o de Viktor Yanukovich, que "fugiu" sob as vaias dos "democratas" de Maidan, desfrutava de um preço de amigo, uma tarifa preferencial.

A tarifa, extremamente vantajosa, fora estabelecida em acordos que autorizavam a frota russa a estacionar na Crimeia, no Mar Negro. Mas agora, como a Crimeia tornou-se autônoma (sob o olhar russo), esses acordos caducaram. Consequentemente, as "tarifas de amigo" estabelecidas quatro anos atrás não mais se justificam.

E como o pensamento de Putin é retroativo, o governo ucraniano deve pagar todos os descontos concedidos pela Rússia, nestes quatro anos, à aliada Ucrânia.

A Ucrânia deve pagar! E logo! Quanto? US$ 2,2 bilhões! Uma mina de ouro. De que maneira um país em frangalhos poderá tirar uma soma dessas dos seus cofres vazios? Bem, então Moscou será obrigada a fechar as torneiras da Gazprom, o que não impedirá que ela dê início a um processo para recuperar todos os atrasados que Kiev lhe deve.

O que incomoda Putin é que a Europa é muito egoísta. Aliás, é por isso que o líder russo precisa explicar aos europeus que, enquanto a Rússia emprestou à Ucrânia US$ 35 bilhões nos últimos quatro anos, a Europa nem sequer pôs a mão no bolso.

"A UE abusou de um país economicamente exaurido. Muitas promessas e nenhuma ação real! A União Europeia serve-se da Ucrânia como fornecedora de produtos agrícolas, de metais, de recursos naturais. E vende ao país produtos químicos, máquinas e ferramentas, o que cria um déficit da balança comercial superior a US$ 10 bilhões."

Há outra coisa que inquieta Putin. Ele teme que a Ucrânia esteja utilizando de maneira indevida o gás destinado à Europa. De fato, os reservatórios ucranianos deveriam estocar 20 bilhões de metros cúbicos de gás para garantir o trânsito, mas estão longe dessa cifra. Aliás, o fato foi revelado na quinta-feira numa sessão do Parlamento da Ucrânia quando Arseni Yatseniuk, o primeiro-ministro ucraniano interino, declarou: "A Nafrogaz (a companhia de gás ucraniana) dispõe de apenas 7,2 bilhões de metros cúbicos de gás em lugar dos 20 bilhões previstos. Eu não tenho nada a ver com o sumiço desse gás". / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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