Ivan Sekretarev/AP
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Moscou vê risco de 'guerra civil' na Síria e blinda Assad contra sanções

Rússia enterra iniciativa de europeus e americanos, com apoio crescente da Liga Árabe, para aprovar resolução no Conselho de Segurança da ONU contra Damasco

GUSTAVO CHACRA, CORRESPONDENTE / NOVA YORK, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2011 | 03h06

NOVA YORK - A Rússia alertou ontem para o risco de a crise na Síria descambar para uma "guerra civil", mas reforçou a mensagem de que, por enquanto, não será possível adotar medidas multilaterais mais enérgicas contra o regime de Bashar Assad. Moscou tem poder de veto no Conselho de Segurança das Nações Unidas.

EUA e países europeus - com crescente apoio do bloco árabe - tentavam recolocar sobre a mesa uma resolução no conselho da ONU contra a Síria, depois de Moscou e de Pequim terem vetado uma punição em outubro. A Rússia, assim como Brasil, África do Sul, Índia e China, adotam a retórica oficial de Damasco e afirmam que os europeus e a Liga Árabe não levam em conta as ações armadas da oposição síria.

"Tudo isso está se assemelhando muito a uma guerra civil", disse o chanceler do Kremlin, Sergei Lavrov. "E não é segredo que, ao lado de manifestantes pacíficos, cujas reivindicações nós apoiamos, é cada vez maior a participação de grupos armados, que têm uma agenda completamente diferente da reforma e da democracia na Síria."

A Liga Árabe suspendeu a Síria no sábado sob o argumento de que o regime de Assad não cumpriu o acordo para cessar a violência, libertar presos, acabar com a restrição ao acesso de observadores independentes e iniciar o diálogo com a oposição. Ontem, diplomatas árabes afirmaram que Damasco teria aceitado receber uma missão de observadores do bloco regional.

Diante da oposição da Rússia, europeus, com o apoio da Liga Árabe, enviaram ontem um texto condenando Assad à Assembleia-Geral da ONU. A resolução deve ser votada terça-feira e, segundo diplomatas, ela deverá ser aprovada.

A medida na plenária das Nações- Unidas, porém, tem efeito apenas simbólico. Somente o Conselho de Segurança pode aprovar resoluções "com dentes" - aquelas em que, caso o país alvo do texto continue a desrespeitar as normas, acaba punido com sanções. Além disso, vários integrantes do G-77 (grupo de países em desenvolvimento) consideram errado votar a resolução em Nova York e não no Conselho de Direitos Humanos, em Genebra.

"O mundo árabe enviou uma clara mensagem indicando que a ampla violação dos direitos humanos e o sofrimento do povo sírio precisam parar. Assim, acreditamos que uma resolução na Assembleia-Geral mostrará a Assad como ele está isolado. Mas, que fique claro, essa resolução não substitui uma ação mais dura no Conselho de Segurança", afirmou o embaixador alemão na ONU, Peter Wittig.

A Síria, com o apoio da Rússia, argumenta que a oposição - subdividida em grupos heterogêneos - tem lançado as operações violentas, matando 34 soldados e policiais no início desta semana, além de não ter concordado em iniciar as negociações. Para completar, os sírios dizem ter libertado mais de mil pessoas.

Ao todo, cerca de 3.500 sírios foram mortos pelo regime Assad em oito meses de protestos, segundo a ONU. Damasco afirma que mais de mil integrantes de suas forças de segurança morreram em ataques de milícias opositoras. Nos últimos dias, ações atribuídas ao Exército Sírio Livre, com base na Turquia, teriam atingido um complexo de inteligência da Força Aérea - observadores estrangeiros em Damasco veem com cautela a suposta ação.

Burhan Ghalion, líder do grupo opositor Conselho Nacional Sírio, pediu para que "sejam evitadas tensões sectárias". Assad mantém apoio substancial das minorias cristãs e alauitas, além da elite sunita de Damasco e Aleppo. Já os opositores são majoritariamente sunitas.

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