REUTERS/Thaier al-Sudani
REUTERS/Thaier al-Sudani

Mosteiro e cidade que são símbolos da sobrevivência cristã no Iraque verão de longe visita do Papa

Mosteiro Rabban Hormizd e cidade cristã de Alqosh sobreviveram a ataques mongóis, persas, árabes, curdos e do Estado Islâmico ao longo dos séculos

Redação, O Estado de S.Paulo

06 de março de 2021 | 05h00

ALQOSH — Encravado em uma encosta rochosa íngreme entre as montanhas remotas do norte do Iraque, o Mosteiro Rabban Hormizd viu invasores irem e virem pela tumultuada história do cristianismo neste canto da antiga Mesopotâmia.

Mongóis, persas, árabes, curdos e otomanos saquearam, cercaram e ocuparam o mosteiro do século VII e a cidade cristã de Alqosh, acima da qual ele se erguia, perto das fronteiras com a Turquia, a Síria e o Irã.

Mas os cristãos sobreviveram ao último ataque, desta vez por militantes do Estado Islâmico que ocuparam um terço do Iraque entre 2014 e 2017, incluindo a cidade de Mosul, apenas 32 km ao sul.

Felizmente para eles, uma série de aldeias logo acima de Mosul ficava o mais ao norte que o grupo conseguia ir, poupando Alqosh da brutalidade infligida às religiões e seitas minoritárias. Algumas famílias fugiram dessas aldeias para a segurança da cidade.

“Esta vai continuar a ser uma cidade cristã, creio eu. Temos que ficar nesta terra”, disse o Saad Yohanna, um monge iraquiano que trabalhava em um orfanato local. “Muito menos pessoas vivem aqui hoje em dia – talvez 1.000 famílias das 3.000 que viviam há alguns anos, mas continua sendo um lar para elas.”

Residentes e cristãos locais fazem regularmente a caminhada sinuosa até o mosteiro para orar ou buscar consolo.

Para eles, a cidade, seus mosteiros e igrejas são um santuário para a vida e o culto em um país onde dizem que a existência cristã está ameaçada.

Dos 1,5 milhão de cristãos no Iraque antes da invasão dos EUA em 2003, apenas cerca de um quinto permanece - os outros foram expulsos pela violência sectária, primeiro pela Al Qaeda, e depois pelo Estado Islâmico.

Os deslocados que permanecerem terão um raro reconhecimento com a visita do Papa Francisco ao país a partir desta sexta, dia 5. O mais perto que ele chegará de Alqosh, no entanto, é um aglomerado de igrejas demolidas em Mosul, que já foi a capital de fato do Estado Islâmico (EI).

Símbolo de resistência

Yohanna estava entre aqueles que deixaram Alqosh quando o Estado Islâmico tomou Mosul e várias cidades habitadas por cristãos ao sul. Ele voltou duas semanas depois, quando Alqosh saiu ilesa.

Algumas famílias das áreas vizinhas fizeram da cidade sua residência permanente. Suas aldeias estão agora sob o controle de milícias muçulmanas xiitas que ajudaram o exército iraquiano a derrotar o Estado Islâmico em 2017.

“As pessoas abriram suas portas para nós como cristãos que fugiam do Daesh (EI) e nos ajudaram a recompor nossas vidas”, conta Maysun Habib, mãe de sete filhos da vizinha Tel Keyf. Daesh é uma sigla em árabe para Estado Islâmico. “Alqosh é um local protegido, não é exposto ou controlado por milícias.”

O controle da própria Alqosh, após séculos de mudanças, permanece sem solução. Encontra-se em um território disputado entre o governo central de Bagdá e a região do Curdistão.

Fica na província de Nínive, em Bagdá, mas é controlada por forças curdas que ajudaram a expulsar o Estado Islâmico.

A família de Habib está entre cerca de 100 das áreas próximas que agora rezam nas igrejas de Alqosh e, ocasionalmente, em uma capela que ainda pode ser usada no mosteiro.

Eles veem o recuo da montanha como um raro símbolo de resistência cristã, poupado da profanação pelo Estado Islâmico em outras partes do norte do Iraque.

O mosteiro mais antigo do país, Santo Elias, perto de Mosul, foi danificado durante o conflito de 2003, antes que o Estado Islâmico o destruísse, pouco mais de uma década depois.

O Mosteiro Rabban Hormizd, que leva o nome de seu fundador, foi construído quando os exércitos muçulmanos estavam conquistando o Oriente Médio e foi fortificado com o tempo. Espalhadas por suas altas paredes de tijolos, há cavernas onde os monges costumavam rezar e se enclausurar.

Tornou-se um importante centro do clero católico oriental do século 16 ao 19, embora os monges gradualmente se mudassem para locais mais acessíveis, incluindo um segundo mosteiro na cidade. Agora está aberto a visitantes, fiéis e monges locais, mas não é habitado.

Shatha Tawfiq, uma mulher que se mudou para Alqosh, resumiu o clima entre os cristãos locais antes da primeira visita papal ao Iraque. “Nossa situação no Iraque não é boa, mas me sinto em casa aqui.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.