Motivos para Obama desistir da reeleição

Se abrir mão da candidatura em 2012, presidente mostrará à nação que é comprometido com os valores que o elegeram; rejeição à abordagem meramente política é sua aliada

DOUGLAS E. SCHOEN e PATRICK H. CADDELL, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2010 | 00h00

O presidente Barack Obama precisa decidir como deseja governar durante os dois anos que antecedem as eleições presidenciais de 2012.

Nos últimos dias, ele apresentou visões diferentes de como abordar os problemas dos EUA. Em certo momento, falou na necessidade de "ajustes no decorrer no trajeto". Em outro, expressou o desejo de aceitar ideias de ambos os lados do espectro político. E antes das eleições legislativas deste mês, ele disse acreditar que os próximos dois anos envolveriam "combates corpo a corpo" contra os republicanos, a quem ele também se referiu como "inimigos".

Está claro que o presidente ainda tenta se decidir a respeito do que fará e como deverá fazê-lo.

Este é um momento crítico para os Estados Unidos. Da economia vacilante até os desafios da política externa, passando pelo fardo deficitário, o país sofre de uma sensação generalizada de crise e ansiedade em relação ao futuro. Sob tais circunstâncias, Obama tem a oportunidade de assumir a iniciativa e arrebatar novamente o imaginário dos EUA, unindo o público e motivando-o a tomar as difíceis decisões que precisam ser tomadas. Mas ele só será capaz de fazê-lo se colocar os interesses nacionais acima dos interesses pessoais e também dos interesses políticos.

Para tal fim, acreditamos que Obama deveria anunciar imediatamente que não se candidatará à reeleição em 2012.

Se o presidente trilhar o caminho da reeleição, certamente viveremos dois anos de impasse político num momento em que não podemos nos dar a este luxo. Mas, ao declarar explicitamente que será um presidente de um único mandato, Obama pode cumprir a promessa central de sua campanha feita em 2008, enxugando o veneno da nossa cultura de polarização e pondo fim ao ressentimento e à divisão que erodiram nossa identidade nacional e nosso propósito comum.

Para nós, chegar a tal conclusão não é fácil. Mas acreditamos que já está claro que o presidente perdeu o consentimento daqueles que governa. As eleições legislativas foram, com efeito, um referendo da presidência de Obama. E mesmo que seu resultado não represente um amplo apoio à visão que os republicanos têm para os Estados Unidos, a surra a que os democratas foram submetidos foi, sem dúvida, uma moção de censura a Obama e seu Partido Democrata. O presidente praticamente esgotou sua credibilidade entre os republicanos e resta-lhe pouca entre os independentes.

Para ele, a melhor maneira de abordar tanto nossos desafios nacionais quanto as graves ameaças à sua credibilidade e estatura é deixar claro que, nos próximos dois anos, ele se concentrará exclusivamente nos problemas que enfrentamos enquanto americanos, e não nas questões políticas do momento - nem nas da campanha de 2012.

Levando-se em consideração nossas divisões políticas e nossos problemas econômicos, governar e fazer campanha tornaram-se atividades simplesmente incompatíveis. Obama pode e deve dispensar todos os especialistas em pesquisas de opinião, marqueteiros políticos, conselheiros e estrategistas que dissecam todas as decisões e avaliações em termos do seu impacto nas perspectivas políticas do presidente.

O próprio Obama disse certa vez a Diane Sawyer: "Prefiro ser um ótimo presidente de um único mandato do que ser um presidente de dois mandatos medíocres." Agora ele tem a chance de mostrar que falava sério.

Na campanha presidencial de 2008, Obama falou repetidas vezes no seu desejo de pôr fim à divisão dos EUA em Estados vermelhos e azuis e transformar o funcionamento de Washington. Este foi um dos motivos centrais pelos quais ele foi eleito; aspirações como essas ressoaram profundamente no eleitorado polarizado.

Obama pode restaurar a promessa da eleição ao forjar um governo de união nacional, dando as boas-vindas aos líderes do empresariado, aos republicanos e aos independentes. Mas, se quiser reunir democratas e republicanos, o presidente não pode ser visto como defensor de um partido em particular, mas sim como alguém acima da política na tentativa de estabelecer um consenso. E, sem dúvida, os EUA precisarão de um consenso para reduzir o déficit e controlar os gastos, para citar apenas um de nossos problemas.

Abrir mão de um segundo mandato não transformaria Obama num pato manco. Paradoxalmente, isto conferiria a ele um poder de influência muito maior sobre os republicanos, além de dificultar o comportamento pouco cooperativo de membros da oposição como o republicano Mitch McConnell, do Kentucky, líder da minoria na Câmara - ele declarou abertamente que sua prioridade é garantir que Obama seja um presidente de um só mandato.

E para democratas como a atual presidente da Câmara, Nancy Pelosi, da Califórnia - ela declarou que a reforma no acesso aos programas de assistência seria derrubada tão logo se materializasse -, a nova posição do presidente tornaria mais difícil sustentar uma atitude inflexível. Levando-se em consideração a influência que os chamados interesses especiais exercem dentro do Partido Democrata, Obama teria um poder de ação muito maior como figura política capaz de se manter acima das lutas políticas. Desafios como promover o crescimento econômico e reduzir o déficit são mais fáceis de ser enfrentados quando não temos de nos preocupar constantemente com a reação dos cidadãos idosos, dos lobistas e dos sindicatos.

Além disso, se o presidente fizesse uma clara demonstração de bipartidarismo sincero, isto obrigaria os republicanos a fazer concessões. Se eles se recusassem, seriam vistos como intransigentes, como ocorreu com o Partido Republicano em 1995 e 1996, quando Bill Clinton começou a defender o equilíbrio orçamentário. Obama poderia, então, procurar os democratas e pedir sua aprovação para os cortes nos programas sociais e procurar os republicanos pedindo-lhes que aprovem difíceis cortes no orçamento da Defesa.

Na política externa, Obama teria mais liberdade para tomar decisões difíceis em relação ao Irã, à Coreia do Norte e ao Afeganistão com base naquilo que seria razoável e responsável por parte dos EUA, sem se preocupar com as restrições políticas de uma eleição vindoura. Ele poderia negociar com um eleitorado democrata que deseja sair do Afeganistão imediatamente e também com um eleitorado republicano comprometido com a continuidade da guerra, abrindo um caminho que responda aos fatos concretos, e não ao calendário eleitoral.

Se o presidente adotar nossa sugestão, ambos os lados serão obrigados a fazer concessões. Tememos que a alternativa exponha o país a um risco ainda maior. Embora acreditemos que Obama possa se reeleger, para fazê-lo ele teria de embarcar numa campanha de terra arrasada como fez George W. Bush nas eleições legislativas de 2002 e nas eleições presidenciais de 2004, dividindo os americanos de uma maneira que nos afeta até hoje.

Em boa medida, Obama deve sua eleição ao fato de ter rejeitado esta abordagem no decorrer de sua campanha histórica. De fato, estávamos entre os milhões de eleitores democratas, republicanos e independentes que foram genuinamente comovidos por sua retórica e seu propósito.

Agora, a única maneira que lhe resta de obter um progresso verdadeiro é retornar a esses valores e dizer que, pelo bem dos EUA, ele não se candidatará em 2012.

Se o presidente optar por este rumo, ele e os EUA não enfrentariam nenhum tipo de resultado ruim. Na pior das hipóteses, Obama sairia da Casa Branca em janeiro de 2013 depois de a transformar sob dois aspectos importantes: como o primeiro presidente negro, é claro, mas também como um homem que governou de acordo com uma maneira sem paralelo entre os líderes modernos. Ele terá reconciliado os EUA, dado prosseguimento à recuperação econômica, obtido certo grau de controle sobre os problemas fiscais que ameaçam nosso futuro e forjado soluções críticas para nossos desafios internacionais. Ele será, afinal, a figura que almejou ser globalmente, e é quase certo que a opinião feita a respeito dele será, então, mais favorável do que a atual. A História o verá com bons olhos - e o público também. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

SCHOEN É ESCRITOR e CADDELL É COMENTARISTA POLÍTICO

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