REUTERS/Abdalrhman Ismail
REUTERS/Abdalrhman Ismail

Motorista cria abrigo em Alepo para crianças e animais que vivem sob fogo cruzado

Com recursos arrecadados dentro e fora do país, Mohamad Alaa Aljaleel consegue alimentar 170 gatos e cerca de 2 mil pessoas

O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2016 | 11h49

BEIRUTE - "Ernesto Cat Shelter" é um lugar especial onde crianças brincam para tentar esquecer a tristeza com relação ao cerco militar vivido em Alepo, na Síria. Criado pelo motorista de ambulância Mohamad Alaa Aljaleel, o espaço está situado em um imóvel abandonado onde residem gatos e alguns cachorros, e conta com um pátio onde as crianças podem brincar e cuidar dos animais no bairro de Masaken Hanano, um dos distritos sitiados ao leste da cidade, cercado pelo Exército e em poder dos rebeldes.

Aljaleel é um declarado amante dos animais e responsável por formar o abrigo que foi crescendo aos poucos. "Quando a guerra começou há cinco anos, muita gente abandonou suas casas e o bairro ficou com uns 20 gatos abandonados. Com o passar dos anos, eles se transformaram em mais de uma centena", lembrou o motorista de 40 anos.

O que hoje é uma estrutura razoavelmente organizada começou de uma forma muito simples. Toda noite, depois de sair do trabalho, ele passava alimentando os animais famintos e distribuindo carinho. No início, ele gastava cerca de US$ 5 por dia para comprar a carne que sobrava nos açougues, mas conforme o número de gatos aumentou, ele passou a gastar US$ 20 diariamente.

Alguns amigos começaram a ajudar e ele acabou criando uma rede de contatos no Facebook, que chegou inclusive ao exterior por meio de um grupo criado por uma estudante libanesa na Itália e batizado de "Il gattaro d'Aleppo", que apoia Aljaleel.

Com os recursos obtidos, ele criou há pouco mais de seis meses a "Ernesto Cat Shelter", aberta a animais e pessoas, principalmente crianças, que desejem aproveitar o local para tentarem se distrair dos horrores da guerra civil que ocorre na cidade.

"Temos gatos de todos os tipos. Na casa são uns 50 permanentes, mas têm outros que vêm, comem e depois voltam para as famílias que os acolheram, e alguns que são de rua mesmo, vão e vêm e dormem em casas vazias", explicou.

Em razão da precariedade, a carne que Aljaleel dava aos animais foi substituída por arroz com mortadela. "No começo, eles não gostaram, mas depois de seis dias passando fome, comeram", relatou.

Com a ajuda e os recursos que arrecada dentro e fora da Síria, atualmente Aljaleel consegue alimentar 170 gatos. No entanto, a iniciativa não se restringe aos animais. Ele também ajuda cerca de duas mil pessoas, com a entrega de alimentos como búlgur (grão de trigo partido), açúcar, feijão e atum.

"Nós, como seres humanos, devemos ter o coração misericordioso. Eu trabalho em uma ambulância e todos os dias vejo pessoas feridas pelos bombardeios. É preciso ter compaixão com os humanos e com os animais", comentou.

Aljaleel, que é pai de três crianças, vai diariamente com os filhos à "Ernesto Cat Shelter". Ele não se arrepende de não ter saído de Alepo, como fizeram muitos amigos que fugiram para a Turquia, longe dos bombardeios e onde encontraram trabalho. "Eu não quero deixar as pessoas daqui. Há muita gente pobre que não pode sair e eu quero ajudá-las", argumentou. / EFE

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