AFP PHOTO / LA NACION / HO
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Motorista fez registro de propinas na Argentina para extorquir, diz ex-mulher

Em trechos da entrevista concedida à revista 'Noticias', Hila Horovitz dá detalhes da suposta distribuição de propinas para ex-integrantes dos governos de Cristina e Néstor Kirchner

O Estado de S.Paulo

03 Agosto 2018 | 20h32

BUENOS AIRES - Hilda Horovitz, ex-mulher do motorista que registrou em cadernos os detalhes da suposta distribuição de propina para ex-integrantes dos governos de Cristina e Néstor Kirchner na Argentina (2003-2015), garantiu que Oscar Centeno guardava as anotações para extorquir seu chefe, o ex-funcionário público Roberto Baratta, caso fosse demitido.

Em um trecho antecipado nesta sexta-feira da entrevista que Horovitz concedeu à revista Noticias, cuja versão completa será publicada amanhã, ela ressaltou que Centeno teve a ideia, quando o governo de Cristina Kirchner estava prestes a terminar em 2015, de usar as anotações que realizou durante 12 anos para manter seu emprego.

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"Ele tinha a ideia de dizer... bom.. se Baratta não o levasse com ele ou não o empregasse como motorista em outro lado ou qualquer coisa... que utilizaria esses cadernos para revelá-los (os esquemas de propina), mas fui eu quem acabou fazendo isso", concluiu a mulher entre risos, de acordo com uma gravação de áudio difundida pela publicação.

Assim, Horovitz reconheceu que os cadernos estavam em seu próprio armário, e deu a entender que foi ela a responsável pela revelação dos mesmos.

Durante os governos de Néstor e Cristina Kirchner, Baratta foi secretário de Coordenação de Planejamento do Ministério de Planejamento Federal, que aglutinava áreas como as obras públicas e as políticas energéticas e habitacionais, e era o lugar de onde supostamente era coordenado o esquema de propina.

Nesta semana, mais de 12 pessoas, entre empresários e ex-funcionários, foram detidas acusadas de integrarem uma "quadrilha" da qual distintas sociedades se beneficiavam de contratos públicos graças ao pagamento de propina.

Outras tantas pessoas, entre elas Cristina, foram convocadas a prestar depoimento como acusadas nas próximas semanas.

O caso está sendo conduzido pelo promotor Carlos Stornelli e o juiz Claudio Bonadio e surgiu de uma investigação do jornal La Nación, que teve acesso às anotações Centeno, que detalham os percursos que ele supostamente fazia com Baratta e outros membros do governo para arrecadar o dinheiro de propina dos empresários durante mais de uma década.

Os destinatários eram, presumivelmente, diversos funcionários e agentes públicos, entre eles o próprio casal presidencial, uma vez que nas anotações aparecem a residência oficial dos governantes na localidade de Olivos, em Buenos Aires, e o apartamento particular da família Kirchner na capital como alguns dos lugares de destino.

"Sim, ele me disse que esteve em Olivos, que a viu (Cristina) de pijamas, que às vezes a via desarrumada... mas disse que não teve contato com ela, que falava mais com (Néstor) Kirchner", afirmou a ex-mulher de Centeno.

Segundo a revista Noticias, Horovitz viveu nove anos com o motorista e, após uma separação tortuosa, chegou a procurar a Justiça para denunciar a suposta rede de propina.

"Ele (Centeno) me batia, mas ficava inconformado por ter transportado tanto dinheiro e só receber migalhas", afirmou a publicação sobre seu bate-papo com a ex-mulher do motorista.

Centeno prestou depoimento na quinta-feira diante do juiz na qualidade de "delator", pois decidiu colaborar com a Justiça em troca de uma redução de pena. / EFE

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