Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Mourão reconhece vitória de Biden, mas diz não responder pelo governo

Em entrevista à Rádio Gaúcha, vice-presidente afirmou que julga a vitória do democrata como 'cada vez mais irreversível'

Emilly Benhke, O Estado de S.Paulo

13 de novembro de 2020 | 10h41
Atualizado 13 de novembro de 2020 | 18h06

BRASÍLIA - Em mais uma declaração que contraria o presidente Jair Bolsonaro, o vice-presidente Hamilton Mourão afirmou nesta sexta-feira, 13, considerar a vitória de Joe Biden na eleição presidencial dos Estados Unidos como "cada vez mais irreversível". O vice, no entanto, fez a ressalva de que não responde pelo governo. "Como indivíduo eu reconheço, eu não respondo pelo governo, mas como indivíduo eu julgo que a vitória de Biden está cada vez mais sendo irreversível", afirmou ele, em entrevista à Rádio Gaúcha.

Mourão citou que é responsabilidade de Bolsonaro o possível pronunciamento sobre o desfecho da disputa americana. Aliado do atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o governo brasileiro é um dos poucos que ainda não reconheceram o resultado da eleição para a Casa Branca. Outros países que não o fizeram são a Coreia do Norte, liderada por Kim Jong-Un, a Rússia, de Vladimir Putin, e o México, de López-Obrador.

A China, que ainda não havia admitido a vitória do democrata, parabenizou Biden nesta sexta. "Respeitamos a escolha do povo americano. Enviamos nossas felicitações a Biden e a Harris", declarou o porta-voz da diplomacia chinesa, Wang Wenbin.  

A imprensa americana informou, também nesta sexta-feira, que o democrata venceu no Estado do Arizona e da Geórgia e consolidou a liderança no colégio eleitoral que escolherá formalmente o novo chefe da Casa Branca. Com isso, o democrata soma agora 306 delegados e Trump, 213.  

À tarde, Mourão disse que a situação de Trump está “complicada” e reiterou ser difícil reverter o quadro, a não ser que ele tenha uma “carta na manga”. “Quando terminou essa situação do Arizona e o Biden já foi pra 306 delegados, acho que ficou complicado. A não ser que o presidente Trump ainda tenha uma carta na manga que a gente desconhece", comentou ele, em entrevista à saída de seu gabinete, no prédio anexo do Palácio do Planalto. 

Hecatombe

O vice procurou minimizar o impacto da manifestação tardia por parte de Bolsonaro. "Aguardem o momento aí que vai acontecer. Não vai ter nenhuma hecatombe nuclear por causa disso", afirmou Mourão, ao observar que nada disso coloca o Brasil em posição de isolamento.

Bolsonaro, no entanto, continua na posição de aguardar o fim das ações judiciais movidas por Trump e, na noite de segunda-feira, 9, chegou a desautorizar Mourão. Em declaração à CNN, disse que não havia conversado com o vice sobre Estados Unidos nem sobre qualquer outro assunto, expondo um mal-estar entre os dois.

Naquele dia, Mourão havia dito que “na hora certa” o presidente falaria sobre o resultado das eleições americanas. “O que ele (Hamilton Mourão) falou sobre os Estados Unidos é opinião dele. Eu nunca conversei com o Mourão sobre assuntos dos Estados Unidos, como não tenho falado sobre qualquer outro assunto com ele”, disse o chefe do Executivo na ocasião.

Mal-estar

A relação entre presidente e vice enfrenta mais um desgaste. Para interlocutores da Presidência, Mourão passou a se posicionar no jogo eleitoral quando percebeu que ficaria fora da chapa de Bolsonaro à reeleição. O vice já chegou a admitir, em algumas ocasiões, que pode se candidatar a senador, daqui a dois anos. "Hoje não estou pensando nisso", disse o vice nesta sexta-feira durante a entrevista à Rádio Gaúcha. “Estou hoje extremamente focado na tarefa que temos pela frente nos próximos dois anos.”

O mal-estar entre os dois aumentou após o ex-ministro da Justiça Sérgio Moro citar o general como uma opção de candidatura de centro nas próximas eleições ao Planalto. A declaração, feita em entrevista ao jornal O Globo, foi vista por integrantes do governo como uma evidência de que o vice e o ex-ministro continuam se falando.

A tensão nos bastidores do governo ficou explícita ao longo desta semana. Além de desautorizar Mourão na segunda-feira, nesta quinta-feira, 12, Bolsonaro chamou de “delírio” a existência de um plano, por parte do governo, para criar mecanismos de expropriação de propriedades, no campo e nas cidades, com registros de queimadas e desmatamentos ilegais.

A medida consta de documento do Conselho Nacional da Amazônia Legal, revelado pelo Estadão. O grupo é comandado por Mourão, que lamentou a divulgação do estudo após a bronca de Bolsonaro. "Eu me penitencio", disse ontem o vice logo após o pito.

'Pólvora'

 Na entrevista à Rádio Gaúcha desta sexta, Mourão também voltou a minimizar a fala de Bolsonaro de que "quando acaba a saliva tem que ter pólvora". "Vejo a coisa da seguinte forma, o presidente, a gente tem que prestar atenção mais nas ações do que nas palavras (de Bolsonaro)", justificou.

Na última terça-feira, 10, sem citar Biden diretamente, Bolsonaro comentou possíveis barreiras comerciais impostas ao Brasil pelos EUA caso as queimadas na região amazônica não fossem contidas. "Apenas a diplomacia não dá", disse o presidente na ocasião.

Apesar do silêncio do governo brasileiro em relação a Biden, Mourão negou que haja uma tensão entre Brasil e EUA e afirmou que os dois países mantêm uma relação de "Estado para Estado". Disse ainda que continuaram buscando pontos em comum nas suas relações diplomáticas. “Independente do momento que for reconhecido resultado da eleição americana, vamos manter diálogo constante”, disse.

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