REUTERS/Fabrizio Bensch
REUTERS/Fabrizio Bensch

Movimento conspiratório QAnon abre caminho na Europa com crise da covid

Mais forte nas redes sociais, por onde se organiza, o movimento teve presença física nas recentes manifestações contra as medidas restritivas de saúde em Berlim, Londres e Paris

Redação, O Estado de S.Paulo

14 de setembro de 2020 | 11h17

Entre as teorias da conspiração que se proliferam com a pandemia da covid-19, o movimento QAnon, nascido em círculos pró-Trump nos Estados Unidos em 2017, abre caminho "lentamente, mas com segurança" na Europa, segundo especialistas. Os temores que vieram à tona com a crise global da saúde foram o combustível para as premissas do movimento alcançarem um público maior no continente.

Bem conhecido nos EUA, o fenômeno ainda está fora dos holofotes do outro lado do Atlântico, mas nos últimos meses ganhou visibilidade exponencial. Mais forte nas redes sociais, por onde se organiza, o movimento teve presença física nas recentes manifestações contra as medidas restritivas de saúde em Berlim, Londres e Paris.

A "teoria QAnon" afirma que os EUA são governados por forças ocultas, envolvidas em redes de pedofilia internacional, as quais buscam estabelecer uma "nova ordem mundial". Apenas o presidente dos EUA, Donald Trump, que nunca negou abertamente os QAnons, poderia derrubá-los. O nome do movimento é inspirado em um "funcionário misterioso do governo", identificado apenas como "Q", que estaria tentando frustrar esse complô.

Centrado na América,  o movimento surgiu na Europa no final de 2019 e no início de 2020, mas sua popularidade "explodiu" com a pandemia da covid-19 e com o confinamento, observa a diretora do Newsguard - uma organização que analisa notícias -  Chine Labbéa.

De acordo com Labbéa, a teoria se adapta muito facilmente a problemas locais. Um relatório da organização do mês de julho mostrou que a teoria conspiratória está se espalhando pela Europa e que a pandemia serviu de "catalisador". 

"O período de incertezas e o contexto de ansiedade são terreno fértil", acrescentou uma fonte do governo francês, que apontou uma tendência "ao mesmo tempo sectária e ideológica" no movimento.

A Newsguard, que estudou sites, páginas e contas da QAnon no Reino Unido, Alemanha, França e Itália, contabilizava cerca de 450.000 seguidores, ou membros, no final de julho. "Mas a consulta a esse tipo de conteúdo continua crescendo exponencialmente", diz a diretora.

'Esponja para teorias conspiratórias'

Surgida em sites confidenciais, a QAnon está ganhando espaço em sites populares de notícias falsas na Europa. O principal fator, como apontado por Labbéa, é que ela se adapta aos contextos políticos locais muito facilmente.

Na Alemanha e na França, por exemplo, Angela Merkel e Emmanuel Macron são apontados como peões do chamado "Estado profundo".

"QAnon é uma esponja para as teorias da conspiração. Tudo, de mitologias antissemitas a 5G, ou à máscara, passando pela ficção científica. O arco de absorção é fenomenal", explica Tristan Mendes France, que ensina culturas digitais na Universidade de Paris.

"E as diferentes teorias se alimentam umas das outras", acrescenta, destacando que seu "ponto forte" se baseia na "pedocriminalidade". "Se você questiona a luta dele, você apoia a pedofilia", completa.

Algumas personalidades europeias popularizaram as teses de QAnon, como o cantor alemão Xavier Naidoo. No Reino Unido, o cantor Robbie Williams difundiu em junho a teoria do "Pizzagate" - precursora do movimento QAnon em 2016 -, segundo a qual uma pizzaria em Washington serviu de esconderijo para uma elite democrata pedófila.

'Sinais leves, mas preocupantes'

Os pesquisadores também estão preocupados com as ligações entre a teoria QAnon e a extrema direita. O cenário é mais preocupante na Alemanha, onde a teoria foi imitada por extremistas que se opõem ao acolhimento de refugiados e por partidários da teoria da "Grande Substituição", diz o pesquisador Miro Dittrich.

"A ligação entre a cena conspiratória e a cena da extrema direita é lamentavelmente lógica, porque compartilham muitas teorias", diz ele.

Considerado nos Estados Unidos pelo FBI como uma possível ameaça terrorista, na Europa o movimento vem sendo observado como "um fenômeno a se monitorar" pelos especialistas.

"Há sinais leves, mas preocupantes", diz Andrea Palladino, jornalista do semanário italiano "L'Espresso", que examina contas relacionadas ao QAnon na Itália e cita algumas mensagens "particularmente perturbadoras" sobre a necessidade de se armar.

Segundo Chine Labbéa, "você pode encontrar de tudo nos seguidores de QAnon, e também há pessoas que transmitem as teorias sem maldade, que às vezes fazem perguntas legítimas sobre a pandemia". "Há quem se deixe levar pelo delírio, quem surfe na onda e, sem dúvida, aqueles que têm uma agenda política, mesmo que seja muito difícil determinar isso. Pode, ou não, desaparecer. O que seria dramático é os partidos políticos tentarem usar esse tipo de movimento"./ AFP

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