'Movimento é por Justiça e direitos fundamentais'

Para analista ucraniano, onda de protestos contra governo é reflexo da frustração com Revolução Laranja, em 2004

Entrevista com

Andrei Netto, Enviado especial - O Estado de S.Paulo

10 de fevereiro de 2014 | 02h06

KIEV - Para o analista político Dmytro Ostroushko, diretor do Departamento Internacional do Gorshenin Institute, de Kiev, o movimento na Praça da Independência ganha causas que vão além do desejo de aproximação com a União Europeia e afastamento da Rússia. A solução para o impasse, segundo ele, passa pela reforma da Constituição.

O que é o Euromaidain?

DMYTRO OSTROUSHKO - Euromaidan, no início, era um movimento, e hoje, dois meses e meio depois, é outro completamente diferente. A primeira reação foi à não assinatura do acordo de associação com a UE. A população estava insatisfeita com o fato de que a associação vinha sendo prometida, mas suas aspirações desabaram em relação à integração com a Europa. Essa reação veio no último momento e ao fato de que apenas uma pessoa, o presidente Viktor Yanukovich, decidiu pela nação inteira. Essa situação durou as duas primeiras semanas, quando o movimento era limitado a estudantes. Aí, vieram as cenas de violência e então o protesto se expandiu, incorporando novas causas. Era um pequeno protesto em favor dos valores europeus e para expressar o desejo de que o presidente não decida sozinho. Euromaidan, hoje, é um movimento por justiça e direitos fundamentais.

Faltou habilidade política a Yanukovich para resolver a crise política?

DMYTRO OSTROUSHKO - No início de dezembro, talvez tivesse sido suficiente demitir o ministro do Interior, que fora o responsável pela violência contra os estudantes. Depois, talvez fosse suficiente demitir o primeiro-ministro. Agora, o protesto é contra o presidente e contra todos os responsáveis pela violência contra a população. Maidan deu um novo significado ao uso da força. As pessoas haviam ficado muito frustradas após a Revolução Laranja, em 2004, quando as perspectivas foram muito boas, mas os resultados ruins. Se alguém tivesse convocado uma nova revolução, os resultados teriam sido negativos, mas hoje não são. Algo mudou na convicção dos ucranianos na atitude política.

Há grupos nacionalistas, fascistas e até neonazistas entre os manifestantes de Maidan. Isso não prejudica a legitimidade do movimento?

DMYTRO OSTROUSHKO - Minha resposta é sim e não. Em primeiro lugar, lembre-se de como funcionava a propaganda soviética. Seus inimigos naturais eram fascistas, nazistas e, na Ucrânia, até mesmo movimentos independentistas eram marcados como fascistas ou neonazistas. Por isso, a população era bem sensível a esse apelo, a esse medo. Há uma tradição sobre o uso dessa retórica. Há alguns grupos sim, e é verdade que eles estão atuantes, organizando a segurança e a ordem em Maidan. Mas é possível encontrar nacionalistas, judeus, ucranianos, todos juntos na praça.

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